Graciliano Ramos

Escrever para agir


Em 1936, o escritor Graciliano Ramos foi preso em Maceió levado a Recife e depois no navio Manaus para o Rio de Janeiro, lá ele passou pela Casa de Detenção e pela Colônia Penal de Ilha Grande. Preso no regime de Getúlio Vargas, sem um motivo claro, esteve entre políticos acusados de comunistas e presos comuns.
De acordo com Wander Melo Miranda, numa necessidade de pagar uma dívida com os seus companheiros de prisão, Graciliano redige Memórias do Cárcere. Segundo Wander, narrar é um ato de resistência, e o crítico afirma: “Resta-lhe a palavra: narrar é resistir, e nesse sentido deve ser entendida a escrita claudicante dos apontamentos interrompidos, retomados, destruídos e posteriormente refeitos pela memória.” (MIRANDA, 2011, p.693).

A partir do estudo crítico de Wander Melo Miranda acerca de Memórias do Cárcere, pretendemos tratar, da experiência vivida por Graciliano Ramos na prisão durante o governo de Getúlio Vargas, e o modo com o qual o escritor lidava com a memória, com o corpo e a escrita. 
Também é de nosso interesse aproximar, ainda que de forma breve, a obra autobiográfica à ficção, Angústia, publicada no mesmo ano da prisão do escritor, com base no estudo teórico de Antonio Candido.
Em Memórias do Cárcere, Graciliano registra em suas memórias as condições desumanas na prisão, os nomes dos companheiros, e revela não só as restrições e condições físicas, mas como o aprisionamento interferira nas condições mentais. A desconfiança entre os companheiros de prisão também era flagrante, pois não sabiam quem espionava e quem não. Não se sabia quem era confiável e todos podiam desconfiar de todos.

"Contudo, no sossego aparente vivíamos inquietos. Olhos atentos nos sondavam por detrás dos óculos escuros, a gente se mexia entre ciladas, uma frase leviana figurava nos relatórios que indivíduos insuspeitos mandavam à polícia. O velho Marques me avisara: - “O senhor hoje pela manhã, ali na mesa dos jornais, cumprimentou com a mão fechada os rapazes do banho de sol. Um de seus companheiros escreveu isso e eu fui portador da informação. Desconfie de toda a gente, de mim e dos outros, mas desconfie mais dos seus amigos.” Isso nos envenenava."

A preocupação com a sintaxe também se fez presente nesta obra do autor, e na prisão o escritor experimentou uma escrita nos limites da gramática e da lei. Graciliano afirma (2011, p.) “Liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social, mas nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos no mexer."
No entanto, o registro da experiência vivida, numa publicação póstuma, é uma confissão da experiência não apenas de um homem, mas, de muitas vozes que se calaram nas galerias antes da liberdade, num momento singular na política brasileira.
Segundo Wander Melo, a escrita de Memórias do Cárcere é uma dívida de Graciliano com seus outros companheiros de prisão, pois a escrita contra o opressor, salva do esquecimento e preserva a solidaridade entre os companheiros de prisão que emergem do esquecimento e do anonimato (MIRANDA, 2004, p.64).
Se narrar é agir, como afirma Wander, é através do registro escrito do que foi experimentado, a partir da memória do oprimido, fora de uma história oficial promovida pelo opressor, que Graciliano age.
O livro Memórias do Cárcere (obra póstuma) só foi publicado em 1953, sem o último capítulo, que segundo Ricardo Ramos, filho do autor, trataria das sensações de liberdade.
Segundo Miranda, Graciliano revela a escrita e a memória como resultados de “idas e vindas, interrupções e retomadas da matéria narrada” (2004, p.62). Todavia, vale ressaltar que em Graciliano a retomada da memória não está presa a métodos que busquem recuperar o passado de forma documental (MIRANDA, 2004, p.61).

"Lembrar é, para Graciliano esquecer-se enquanto sujeito-objeto da lembrança, esgueirar-se para os cantos, colocar-se à margem do texto – ser escrito por ele, ao invés de escrevê-lo – para que a linguagem em processo intermitente de produção possa cumprir seu papel de instrumento socializador da memória e afirmar o valor ético do narrado."

                                                                                                                                                              De acordo com Miranda, o reencontro com o outro no passado confronta esse passado com o presente, onde é possível reinventar o trajeto percorrido através de imagens arbitrárias da memória e da imaginação. E ainda, “a economia narrativa revela, assim, uma política do texto voltada para concepção de memória entendida como repetição em busca da diferença, na qual o passado é eleito como um lugar de reflexão – no sentido simultâneo de retratar e reflexionar” (MIRANDA, 2004, p.61).
                                                                                                                      Na cadeia é constante a tentativa de registro de Graciliano, no entanto, temendo a repressão, várias vezes, abandona seus registros, no entanto, dois contos são redigidos: “O relógio do hospital” e “Paulo”. Porém, segundo Miranda, a dívida com os companheiros - presos comuns e políticos, só é paga com Memórias do Cárcere.
Instituto Penal Cândido Mendes



                                                                                                                      Várias vezes nas reminiscências do autor acerca da cadeia se interpõem imagens do hospital quando ele fizera uma cirurgia, e ele também se vê divido em dois, onde o outro é Paulo. A lembrança do livro deixado para a datilógrafa também é constante e várias memórias se entrecruzam na narrativa.
 É interessante notar, a partir da visão do escritor como as prisões funcionavam, como os militares agiam, os que estavam presos e os que não estavam, como os faxinas (presidiários que cumpriam penas longas) serviam aos presos, e as divisões e relações que havia entre os presos políticos e presos comuns.
 
O corpo várias vezes é evocado na obra, desde a viagem do escritor no navio Manaus, na qual ele percebe partes dos corpos dos outros, odores e excreções alheias e sente o ar sufocante e pestilento, o cheiro de “amoníaco”, o calor, a falta de apetite.

"Afastei-me, marchando nos calcanhares, tentando evitar as coisas moles pisadas na véspera e percebendo claramente donde vinha o cheiro forte de amoníaco. Aquelas pessoas urinavam no chão, a um canto; o mijo corria, alagava tudo, arrastando cascas de frutas, vômitos, outras imundícies."                                                                                                           
                                                                                                                     Na Casa de Detenção no Rio de Janeiro, na hora em que os presos passam na revista, Graciliano observa a tatuagem do faxina e vê o esqueleto e a cicatriz no pulso, marca de que o homem tentara provavelmente apagar a tatuagem e com ela o estigma.
Cena do filme "Memórias do cárcere"
"Aí se percebia, tatuado um esqueleto, ruína de esqueleto: crânio, costelas, braços, espinha; medonha cicatriz, no pulso, havia comido parte da carcaça. Desejando livrar-se do estigma, o pobre causticara inutilmente a pele. " 


                                                                                                                        Na Colônia Correcional em Ilha Grande, o escritor passa semanas sem comer, alimentado apenas pelos cigarros e percebe em seu corpo um cadáver. Além disso, Graciliano sente fortes dores no “pé da barriga” e arrasta a perna com dificuldade devido um problema de saúde.
                                                                                                                     Na Colônia, ele vê entre outras coisas, um homem com a barriga aberta que agoniza na prisão e grita de dor. Um de seus companheiros, Gaúcho, traz no corpo uma tatuagem que é o símbolo de sua atividade - um falo que vai até depois do joelho –, assim ele demonstra que é um arrombador. O escritor também observa como os companheiros que assim como ele habitavam o Pavilhão dos Primários passam a minguar em Ilha Grande. O próprio Graciliano ao voltar da Colônia Correcional percebe com surpresa ao se olhar no espelho a imagem de um homem muito debilitado e maltratado.
                                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                                                                     Wander ressalta as impressões acústicas nas reminiscências do autor, e afirma que tanto em Infância quanto em Memórias do Cárcere: “é no transcurso da oftalmia que a opressão se revela. [...] É o olho danificado, mutilado, que desnuda para o menino a condição de intruso e castrado” (MIRANDA, 2011,p. 691).
                                                                               E para Wander, a dolorosa experiência vivenciada pelo escritor no cárcere se relaciona a visão de gente incompleta, o que resulta na necessidade de dar forma às imagens distorcidas na memória e “transformar em história significante a vida ou as vidas que escapam e fogem a todo momento, mutiladas, fragmentadas e dispersas no tempo (MIRANDA, 2011, p.692).
                                                                                                                               O homossexualismo entre outros presos e faxinas também é tratado por Graciliano e “anafrodisia” na qual viveu por muito tempo. “ Súbita desaparição de desejos eróticos e um resfriamento geral, espécie de anestesia; órgãos se embotavam, paralisavam: a esquisita impressão de haver em mim pedaços mortos”. (RAMOS, 2011, p.214).
                                                                                                                       Nas narrativas de Graciliano podemos observar o episódio da latrina na Colônia Correcional, o despudor e falta de higiene na vida carcerária, a má alimentação, o medo, a suspeita constante e toda espécie de aviltamento possível, que leva os presos à regressão, à condição de selvagens, à degradação moral e física, à doença e à morte. O que faz jus a afirmação do encarregado em Ilha Grande: “Vocês não vêm corrigir-se, estão ouvindo? Não vêm corrigir-se: vêm morrer” (RAMOS, 2011, p. 429).
                                                                                                                  Para Wander “a força de resistência” do relato de Graciliano está “na transmissão realista” dos corpos degradados. O relato de Graciliano representa uma “vitória contra a morte anunciada” e uma “denúncia da violência contra um e todos.” (MIRANDA, 2004, p.) O que interessa ao autor é tratar do oprimido e através das histórias de presos comuns como Cubano e Gaúcho, que se tornam seus amigos na Colônia Correcional. Essas experiências vivenciadas fazem com que o intelectual de formação burguesa se solidarize com os oprimidos e dê voz a eles, retirando-os do anonimato através da escrita.
                                                                                                                    Em Ficção e Confissão, Antonio Candido afirma a relação entre Angústia e Memórias do Cárcere, entre Luís da Silva e Graciliano Ramos. Para ele:

                                                                                                          
                               Poderíamos dizer finalmente que isso tudo se reúne na antinomia sujeira-limpeza, que o persegue fisicamente em Memórias do Cárcere e, transporta ao plano moral, é um dos eixos para compreender a personalidade de Luís da Silva [...] Assim, parece que Angústia contém muito de Graciliano Ramos, tanto no plano consciente (pormenores biográficos) quanto no inconsciente (tendências profundas e frustrações), representando a sua projeção pessoal até aí mais completa no plano da arte (CANDIDO, 2006, p.61).

Como é relatado por Graciliano, no ato da prisão, a obra Angústia é deixada com a datilógrafa d. Jeni e, ainda no mesmo ano, com ajuda de amigos e interesse de José Olímpio é publicada. A visão fragmentada de Luís da Silva, o protagonista da ficção, que confessa o crime passional e teme pela prisão, muito se aproxima das memórias do autor em “Infância” e mesmo da visão por vezes fragmentada do autor em Memórias do Cárcere como já fora colocado. O autor, assim como a personagem, deseja escrever um livro na prisão.
A cadeia era o único lugar que proporcionaria o mínimo de tranqüilidade necessária para corrigir o livro. O meu protagonista se enleara nesta obsessão: escrever um romance além das grades úmidas e pretas. Convenci-me de que isso seria fácil: enquanto homens de roupa zebrada compusessem botões de punho e caixinhas de tartaruga, eu ficaria largas horas em silêncio, a consultar dicionários, riscando linhas, metendo entrelinhas nos papéis datilografados por d. Jeni. [...] Eu, não gosto de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em caraminholas, por que não haveria de acostumar-me também? (RAMOS, 2011, p.24-25).

                                                                                                                  Numa espécie de confissão, Luís da Silva, após cometer o crime contra Julião Tavares, deseja escrever um livro e afirma:
                                  "Faria um livro na prisão. Amarelo, papudo, faria um grande livro, que seria traduzido e circularia em muitos países. Escrevê-lo-ia a lápis, em papel de embrulho, nas margens de jornais velhos."


                                                                                                                     
Graciliano Ramos e Luís da Silva possuem traços comuns ligados a uma mesma origem sertaneja. A experiência em viagens às metrópoles, a vida precária de escritor, a herança rural e outros hábitos e adjetivos que se aproximam como: o fumo, a água ardente, a leitura e o modo introspectivo e jeito encabulado de lidar com os outros, preferindo muitas vezes a contemplação do outro.
Mas se em Angústia temos a visão exterior do autor em relação à prisão, em Memórias do Cárcere, a visão de dentro se ajusta a anterior na obra de ficção. E se o autor julgava a prisão um espaço onde poderia fazer com tranqüilidade e calma a revisão de Angústia e criar outras composições, logo trocou de ideia ao experimentar ali a falta de privacidade, o aviltamento, a falta de mínimas condições de higiene, a alimentação precária e a tortura física e mental, a vida animalesca, onde o medo constante e as condições transformavam homens inteligentes em flagelos humanos.
Por fim, observamos que através das reminiscências, da imaginação, das muitas repetições, entre a opressão e o desejo de escrever, Graciliano faz emergir não só a “Rádio Libertadora” e o “Hino do Brasileiro Pobre”, não só o encontro com presos politicos e comuns, as figuras de Nise da Silveira, Elisa Beger e Olga Prestes, e tantos companheiros brasileiros, estrangeiros, militares, politicos, intelectuais, ladrões, mas, sobretudo, faz emergir muitos gritos no escuro, toda nausea, solidão, medo e aviltamento sofridos por tantos que trocaram seus nomes por números, que tiveram o corpo e a alma dilacerados no governo de Getúlio Vargas. Uma marca que não pode ser apagada assim como a tatuagem de esqueleto do faxina na Casa de Detenção, que iria perseguí-lo para o resto da vida.

Heloísa Ramos, Graciliano Ramos, Pablo Neruda, Cândido Portinari e Jorge Amado.

Segundo Wander, Graciliano aproxima a arte da vida, e chega a se questionar se o trabalho artístico pode contribuir com o regime dominante manipulado pelo capitalismo, sobretudo, na época da repressão (MIRANDA, 2004, p.68). Na contra-mão da ideologia dominante, ao escrever o que experimentou na carne, Graciliano Ramos faz de Memórias do Cárcere, uma obra de suma importância para a literatura e para a história, a partir da qual é possível ler a história dentro da história e desvelar o Brasil.






Referências bibliográficas:

Posfácio de Wander Melo Miranda em Memórias do Cárcere, Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Record, 2011.
MIRANDA, Wander Melo. Graciliano Ramos (Folha Explica). São Paulo: Publifolha, 2004.
 MIRANDA, Wander Melo. Graciliano Ramos. São Paulo: Publifolha, 2004; p. 36.
CANDIDO, Antonio. Ficção e Confissão – ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio, São Paulo: Record, 2005; p.263.

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