Escrever para agir
Em
1936, o escritor Graciliano Ramos foi preso em Maceió levado a Recife e
depois no navio Manaus para o Rio de Janeiro, lá ele passou pela Casa
de Detenção e pela Colônia Penal de Ilha Grande. Preso no regime de
Getúlio Vargas, sem um motivo claro, esteve entre políticos acusados de
comunistas e presos comuns.
Em Memórias do Cárcere,
Graciliano registra em suas memórias as condições desumanas na prisão,
os nomes dos companheiros, e revela não só as restrições e condições
físicas, mas como o aprisionamento interferira nas condições mentais. A
desconfiança entre os companheiros de prisão também era flagrante, pois
não sabiam quem espionava e quem não. Não se sabia quem era confiável e
todos podiam desconfiar de todos.
"Contudo,
no sossego aparente vivíamos inquietos. Olhos atentos nos sondavam por
detrás dos óculos escuros, a gente se mexia entre ciladas, uma frase
leviana figurava nos relatórios que indivíduos insuspeitos mandavam à
polícia. O velho Marques me avisara: - “O senhor hoje pela manhã, ali na
mesa dos jornais, cumprimentou com a mão fechada os rapazes do banho de
sol. Um de seus companheiros escreveu isso e eu fui portador da
informação. Desconfie de toda a gente, de mim e dos outros, mas
desconfie mais dos seus amigos.” Isso nos envenenava."
"Aí
se percebia, tatuado um esqueleto, ruína de esqueleto: crânio,
costelas, braços, espinha; medonha cicatriz, no pulso, havia comido
parte da carcaça. Desejando livrar-se do estigma, o pobre causticara
inutilmente a pele. "
Wander ressalta as
impressões acústicas nas reminiscências do autor, e afirma que
tanto em Infância quanto em Memórias do Cárcere: “é
no transcurso da oftalmia que a opressão se revela. [...] É o olho
danificado, mutilado, que desnuda para o menino a condição de
intruso e castrado” (MIRANDA, 2011,p. 691).
E para Wander, a
dolorosa experiência vivenciada pelo escritor no cárcere se
relaciona a visão de gente incompleta, o que resulta na necessidade
de dar forma às imagens distorcidas na memória e “transformar em
história significante a vida ou as vidas que escapam e fogem a todo
momento, mutiladas, fragmentadas e dispersas no tempo (MIRANDA, 2011,
p.692).
Em
1936, o escritor Graciliano Ramos foi preso em Maceió levado a Recife e
depois no navio Manaus para o Rio de Janeiro, lá ele passou pela Casa
de Detenção e pela Colônia Penal de Ilha Grande. Preso no regime de
Getúlio Vargas, sem um motivo claro, esteve entre políticos acusados de
comunistas e presos comuns.
De acordo com Wander Melo Miranda, numa necessidade de pagar uma dívida com os seus companheiros de prisão, Graciliano redige Memórias do Cárcere. Segundo
Wander, narrar é um ato de resistência, e o crítico afirma: “Resta-lhe a
palavra: narrar é resistir, e nesse sentido deve ser entendida a
escrita claudicante dos apontamentos interrompidos, retomados,
destruídos e posteriormente refeitos pela memória.” (MIRANDA, 2011, p.693).
A partir do estudo crítico de Wander Melo Miranda acerca de Memórias do Cárcere, pretendemos tratar, da experiência vivida por Graciliano Ramos na prisão durante o governo de Getúlio Vargas, e o modo com o qual o escritor lidava com a memória, com o corpo e a escrita.
A partir do estudo crítico de Wander Melo Miranda acerca de Memórias do Cárcere, pretendemos tratar, da experiência vivida por Graciliano Ramos na prisão durante o governo de Getúlio Vargas, e o modo com o qual o escritor lidava com a memória, com o corpo e a escrita.
Também é de nosso interesse aproximar,
ainda que de forma breve, a obra autobiográfica à ficção, Angústia, publicada no mesmo ano da prisão do escritor, com base no estudo teórico de Antonio Candido.
"Contudo,
no sossego aparente vivíamos inquietos. Olhos atentos nos sondavam por
detrás dos óculos escuros, a gente se mexia entre ciladas, uma frase
leviana figurava nos relatórios que indivíduos insuspeitos mandavam à
polícia. O velho Marques me avisara: - “O senhor hoje pela manhã, ali na
mesa dos jornais, cumprimentou com a mão fechada os rapazes do banho de
sol. Um de seus companheiros escreveu isso e eu fui portador da
informação. Desconfie de toda a gente, de mim e dos outros, mas
desconfie mais dos seus amigos.” Isso nos envenenava."
A
preocupação com a sintaxe também se fez presente nesta obra do autor, e
na prisão o escritor experimentou uma escrita nos limites da gramática e
da lei. Graciliano afirma (2011, p.) “Liberdade completa ninguém
desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a
delegacia de ordem política e social, mas nos estreitos limites a que
nos coagem a gramática e a lei, ainda podemos no mexer."
No
entanto, o registro da experiência vivida, numa publicação póstuma, é
uma confissão da experiência não apenas de um homem, mas, de muitas
vozes que se calaram nas galerias antes da liberdade, num momento
singular na política brasileira.
Segundo Wander Melo, a escrita de Memórias do Cárcere
é uma dívida de Graciliano com seus outros companheiros de prisão, pois
a escrita contra o opressor, salva do esquecimento e preserva a
solidaridade entre os companheiros de prisão que emergem do esquecimento
e do anonimato (MIRANDA, 2004, p.64).
Se
narrar é agir, como afirma Wander, é através do registro escrito do que
foi experimentado, a partir da memória do oprimido, fora de uma
história oficial promovida pelo opressor, que Graciliano age.
O livro Memórias do Cárcere
(obra póstuma) só foi publicado em 1953, sem o último capítulo, que
segundo Ricardo Ramos, filho do autor, trataria das sensações de
liberdade.
Segundo
Miranda, Graciliano revela a escrita e a memória como resultados de
“idas e vindas, interrupções e retomadas da matéria narrada” (2004,
p.62). Todavia, vale ressaltar que em Graciliano a retomada da memória
não está presa a métodos que busquem recuperar o passado de forma
documental (MIRANDA, 2004, p.61).
"Lembrar
é, para Graciliano esquecer-se enquanto sujeito-objeto da lembrança,
esgueirar-se para os cantos, colocar-se à margem do texto – ser escrito
por ele, ao invés de escrevê-lo – para que a linguagem em processo
intermitente de produção possa cumprir seu papel de instrumento
socializador da memória e afirmar o valor ético do narrado."
De
acordo com Miranda, o reencontro com o outro no passado confronta esse
passado com o presente, onde é possível reinventar o trajeto percorrido
através de imagens arbitrárias da memória e da imaginação. E ainda, “a
economia narrativa revela, assim, uma política do texto voltada para
concepção de memória entendida como repetição em busca da diferença, na
qual o passado é eleito como um lugar de reflexão – no sentido
simultâneo de retratar e reflexionar” (MIRANDA, 2004, p.61).
Na
cadeia é constante a tentativa de registro de Graciliano, no entanto,
temendo a repressão, várias vezes, abandona seus registros, no entanto,
dois contos são redigidos: “O relógio do hospital” e “Paulo”. Porém,
segundo Miranda, a dívida com os companheiros - presos comuns e
políticos, só é paga com Memórias do Cárcere.
Várias
vezes nas reminiscências do autor acerca da cadeia se interpõem imagens
do hospital quando ele fizera uma cirurgia, e ele também se vê divido
em dois, onde o outro é Paulo. A lembrança do livro deixado para a
datilógrafa também é constante e várias memórias se entrecruzam na
narrativa.
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| Instituto Penal Cândido Mendes |
É
interessante notar, a partir da visão do escritor como as prisões
funcionavam, como os militares agiam, os que estavam presos e os que não
estavam, como os faxinas (presidiários que cumpriam penas longas)
serviam aos presos, e as divisões e relações que havia entre os presos
políticos e presos comuns.
O corpo várias vezes é evocado na obra, desde a viagem do escritor no navio Manaus, na qual ele percebe partes dos corpos dos outros, odores e excreções alheias e sente o ar sufocante e pestilento, o cheiro de “amoníaco”, o calor, a falta de apetite.
O corpo várias vezes é evocado na obra, desde a viagem do escritor no navio Manaus, na qual ele percebe partes dos corpos dos outros, odores e excreções alheias e sente o ar sufocante e pestilento, o cheiro de “amoníaco”, o calor, a falta de apetite.
"Afastei-me,
marchando nos calcanhares, tentando evitar as coisas moles pisadas na
véspera e percebendo claramente donde vinha o cheiro forte de amoníaco.
Aquelas pessoas urinavam no chão, a um canto; o mijo corria, alagava
tudo, arrastando cascas de frutas, vômitos, outras imundícies."
Na
Casa de Detenção no Rio de Janeiro, na hora em que os presos passam na
revista, Graciliano observa a tatuagem do faxina e vê o esqueleto e a
cicatriz no pulso, marca de que o homem tentara provavelmente apagar a
tatuagem e com ela o estigma.
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| Cena do filme "Memórias do cárcere" |
Na Colônia Correcional
em Ilha Grande, o escritor passa semanas sem comer, alimentado apenas
pelos cigarros e percebe em seu corpo um cadáver. Além disso,
Graciliano sente fortes dores no “pé da barriga” e arrasta a
perna com dificuldade devido um problema de saúde.
Na Colônia, ele vê entre outras coisas, um homem com a barriga aberta que agoniza na prisão e grita de dor. Um de seus companheiros, Gaúcho, traz no corpo uma tatuagem que é o símbolo de sua atividade - um falo que vai até depois do joelho –, assim ele demonstra que é um arrombador. O escritor também observa como os companheiros que assim como ele habitavam o Pavilhão dos Primários passam a minguar em Ilha Grande. O próprio Graciliano ao voltar da Colônia Correcional percebe com surpresa ao se olhar no espelho a imagem de um homem muito debilitado e maltratado.
Na Colônia, ele vê entre outras coisas, um homem com a barriga aberta que agoniza na prisão e grita de dor. Um de seus companheiros, Gaúcho, traz no corpo uma tatuagem que é o símbolo de sua atividade - um falo que vai até depois do joelho –, assim ele demonstra que é um arrombador. O escritor também observa como os companheiros que assim como ele habitavam o Pavilhão dos Primários passam a minguar em Ilha Grande. O próprio Graciliano ao voltar da Colônia Correcional percebe com surpresa ao se olhar no espelho a imagem de um homem muito debilitado e maltratado.
E para Wander, a
dolorosa experiência vivenciada pelo escritor no cárcere se
relaciona a visão de gente incompleta, o que resulta na necessidade
de dar forma às imagens distorcidas na memória e “transformar em
história significante a vida ou as vidas que escapam e fogem a todo
momento, mutiladas, fragmentadas e dispersas no tempo (MIRANDA, 2011,
p.692).
O homossexualismo entre outros presos e faxinas
também é tratado por Graciliano e “anafrodisia” na qual viveu
por muito tempo. “ Súbita desaparição de desejos eróticos e um
resfriamento geral, espécie de anestesia; órgãos se embotavam,
paralisavam: a esquisita impressão de haver em mim pedaços mortos”.
(RAMOS, 2011, p.214).
Nas narrativas de Graciliano podemos observar o episódio da latrina na Colônia Correcional, o despudor e falta de higiene na vida carcerária, a má alimentação, o medo, a suspeita constante e toda espécie de aviltamento possível, que leva os presos à regressão, à condição de selvagens, à degradação moral e física, à doença e à morte. O que faz jus a afirmação do encarregado em Ilha Grande: “Vocês não vêm corrigir-se, estão ouvindo? Não vêm corrigir-se: vêm morrer” (RAMOS, 2011, p. 429).
Nas narrativas de Graciliano podemos observar o episódio da latrina na Colônia Correcional, o despudor e falta de higiene na vida carcerária, a má alimentação, o medo, a suspeita constante e toda espécie de aviltamento possível, que leva os presos à regressão, à condição de selvagens, à degradação moral e física, à doença e à morte. O que faz jus a afirmação do encarregado em Ilha Grande: “Vocês não vêm corrigir-se, estão ouvindo? Não vêm corrigir-se: vêm morrer” (RAMOS, 2011, p. 429).
Para
Wander “a força de resistência” do relato de Graciliano está “na
transmissão realista” dos corpos degradados. O relato de Graciliano
representa uma “vitória contra a morte anunciada” e uma “denúncia da
violência contra um e todos.” (MIRANDA, 2004, p.) O que interessa ao
autor é tratar do oprimido e através das histórias de presos comuns como
Cubano e Gaúcho, que se tornam seus amigos na Colônia Correcional.
Essas experiências vivenciadas fazem com que o intelectual de formação
burguesa se solidarize com os oprimidos e dê voz a eles, retirando-os do
anonimato através da escrita.
Em Ficção e Confissão, Antonio Candido afirma a relação entre Angústia e Memórias do Cárcere, entre Luís da Silva e Graciliano Ramos. Para ele:
Poderíamos dizer finalmente que isso tudo se reúne na antinomia sujeira-limpeza, que o persegue fisicamente em Memórias do Cárcere e, transporta ao plano moral, é um dos eixos para compreender a personalidade de Luís da Silva [...] Assim, parece que Angústia contém
muito de Graciliano Ramos, tanto no plano consciente (pormenores
biográficos) quanto no inconsciente (tendências profundas e
frustrações), representando a sua projeção pessoal até aí mais completa
no plano da arte (CANDIDO, 2006, p.61).
Como é relatado por Graciliano, no ato da prisão, a obra Angústia
é deixada com a datilógrafa d. Jeni e, ainda no mesmo ano, com ajuda de
amigos e interesse de José Olímpio é publicada. A visão fragmentada de
Luís da Silva, o protagonista da ficção, que confessa o crime passional e
teme pela prisão, muito se aproxima das memórias do autor em “Infância”
e mesmo da visão por vezes fragmentada do autor em Memórias do Cárcere como já fora colocado. O autor, assim como a personagem, deseja escrever um livro na prisão.
A
cadeia era o único lugar que proporcionaria o mínimo de tranqüilidade
necessária para corrigir o livro. O meu protagonista se enleara nesta
obsessão: escrever um romance além das grades úmidas e pretas.
Convenci-me de que isso seria fácil: enquanto homens de roupa zebrada
compusessem botões de punho e caixinhas de tartaruga, eu ficaria largas
horas em silêncio, a consultar dicionários, riscando linhas, metendo
entrelinhas nos papéis datilografados por d. Jeni. [...] Eu, não gosto
de andar, nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas,
embrenhando-me em caraminholas, por que não haveria de acostumar-me
também? (RAMOS, 2011, p.24-25).
Numa espécie de confissão, Luís da Silva, após cometer o crime contra Julião Tavares, deseja escrever um livro e afirma:
"Faria
um livro na prisão. Amarelo, papudo, faria um grande livro, que seria
traduzido e circularia em muitos países. Escrevê-lo-ia a lápis, em papel
de embrulho, nas margens de jornais velhos."
Graciliano
Ramos e Luís da Silva possuem traços comuns ligados a uma mesma origem
sertaneja. A experiência em viagens às metrópoles, a vida precária de
escritor, a herança rural e outros hábitos e adjetivos que se aproximam
como: o fumo, a água ardente, a leitura e o modo introspectivo e jeito
encabulado de lidar com os outros, preferindo muitas vezes a
contemplação do outro.
Mas se em Angústia temos a visão exterior do autor em relação à prisão, em Memórias do Cárcere,
a visão de dentro se ajusta a anterior na obra de ficção. E se o autor
julgava a prisão um espaço onde poderia fazer com tranqüilidade e calma a
revisão de Angústia e criar outras composições, logo trocou de
ideia ao experimentar ali a falta de privacidade, o aviltamento, a falta
de mínimas condições de higiene, a alimentação precária e a tortura
física e mental, a vida animalesca, onde o medo constante e as condições
transformavam homens inteligentes em flagelos humanos.
Por
fim, observamos que através das reminiscências, da imaginação, das
muitas repetições, entre a opressão e o desejo de escrever, Graciliano
faz emergir não só a “Rádio Libertadora” e o “Hino do Brasileiro Pobre”,
não só o encontro com presos politicos e comuns, as figuras de Nise da
Silveira, Elisa Beger e Olga Prestes, e tantos companheiros brasileiros,
estrangeiros, militares, politicos, intelectuais, ladrões, mas,
sobretudo, faz emergir muitos gritos no escuro, toda nausea, solidão,
medo e aviltamento sofridos por tantos que trocaram seus nomes por
números, que tiveram o corpo e a alma dilacerados no governo de Getúlio
Vargas. Uma marca que não pode ser apagada assim como a tatuagem de
esqueleto do faxina na Casa de Detenção, que iria perseguí-lo para o
resto da vida.
Segundo Wander, Graciliano aproxima a arte da vida, e chega a se questionar se o trabalho artístico pode contribuir com o regime dominante manipulado pelo capitalismo, sobretudo, na época da repressão (MIRANDA, 2004, p.68). Na contra-mão da ideologia dominante, ao escrever o que experimentou na carne, Graciliano Ramos faz de Memórias do Cárcere, uma obra de suma importância para a literatura e para a história, a partir da qual é possível ler a história dentro da história e desvelar o Brasil.
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| Heloísa Ramos, Graciliano Ramos, Pablo Neruda, Cândido Portinari e Jorge Amado. |
Segundo Wander, Graciliano aproxima a arte da vida, e chega a se questionar se o trabalho artístico pode contribuir com o regime dominante manipulado pelo capitalismo, sobretudo, na época da repressão (MIRANDA, 2004, p.68). Na contra-mão da ideologia dominante, ao escrever o que experimentou na carne, Graciliano Ramos faz de Memórias do Cárcere, uma obra de suma importância para a literatura e para a história, a partir da qual é possível ler a história dentro da história e desvelar o Brasil.
MIRANDA, Wander Melo. Graciliano Ramos. São Paulo: Publifolha, 2004; p. 36.









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