quarta-feira, 10 de novembro de 2021

 

Me deixei tomar pelo texto do outro
Me deixei levar por abraços e embaraços
Me deixei calar diante de altos bramidos
Me deixei levar por não estar comigo
E do outro parecer mais íntimo

E de repente,
Me ausentei da minha própria história
Da minha justa palavra
Da minha língua própria. 

Alexa Britto-Velásquez, 2021.
 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Entre duas cidades


Entre duas cidades
 Noite de Nice, 1891, Edvard Munch.
Ele tomou o trem das duas e depois de oito horas estava em um novo lugar, livre do seu passado, pelo menos era o que pensava. Ao chegar na estação, desconheceu sua própria cidade, tudo parecia novo, olhou os jovens mastigando chocolates comprados em máquinas, velhos com seus longos casacos e valises pequenas, pessoas sérias. Caminhou lentamente pelo acesso inferior que levava à porta da estação e mais uma vez parou. Observou uma pequena praça com bicicletas, carros parados e o ponto de ônibus na esquina. Preferiu seguir a pé, há muito tempo não percorria aquela cidade, olhava para as pessoas com o mesmo deslumbramento da infância e apesar de parecer perdido seguia pela rua a procurar velhas esquinas. Passou pela barbearia árabe, pela padaria, pela escola das crianças, viu quando um menino trepado na janela desta mesma escola, do lado de fora, gritava para outro que estava no pátio. Quis entrar na escola, na barbearia, na padaria, mas segurou o impulso e seguiu. Fazia frio, em pouco tempo escureceria, ele precisava achar um lugar para dormir. Mais uma esquina, um grande mercado à frente, uma pizzaria em uma van. Achava tudo tão moderno. Seguiu em frente e achou um hotel, o preço não tão justo, mas pediu um quarto, um café americano e subiu para o nono andar. Ali, com certeza, estaria a salvo. Ninguém se lembraria dele, nem saberia do que ocorrera na outra cidade. Os policiais deram o caso por encerrado, ninguém conseguiu provas, e as notícias das guerras e da construção de muros para impedir os refugiados de entrarem no país ocupavam as manchetes dos jornais. Entrou no quarto, virou o ferrolho, passou a chave e se certificou de que o roupeiro estivesse solto da parede. Empurrou o roupeiro na direção da porta e respirou aliviado, jogou a pequena valise pelo chão, pendurou o casaco no cabide do armário e foi ao banheiro. Lavou o rosto, e ao se olhar no espelho, já enxergava em si certa mudança, parecia mais novo, uma outra pessoa. Ninguém o reconheceria, na foto publicada no jornal ele estava mais magro, barba por fazer, cabelos longos, agora era outro. Acendeu o abajur, ligou a tv, e se deixou levar pela cantilena de um programa de karaokê - Entrez-vous. Dormiu. Estava escuro, um vento frio, e um homem com uma enorme capa preta subia o bosque e levava consigo uma presa de tamanho humano, em pouco tempo, se embrenhou  na mata e lá a devorou. Na manhã seguinte, o novo hóspede  sentiu um mal estar inexplicável, e ao passar a língua pelas gengivas experimentou um  gosto amargo de sangue.  Produto talvez de um bruxismo que lhe acompanhava durante anos. Ainda estava de pijama e meias, quando desceu correndo os noves andares em  direção à recepção e se pôs a inquirir o atendente. Segundo ele, ninguém passara pelo hall depois da meia-noite. O homem resolveu então trocar de hotel.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Graciliano Ramos

As Lavadeiras, de Cândido Portinari - 1944
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão.
Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada  na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."(Graciliano Ramos).

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Desaparecidos

Foi na tarde de quinta-feira, depois das cinco, que esta senhora, de pernas compridas e joelhos de fora, saiu de casa e desapareceu. Os vizinhos não viram, o porteiro acenou como sempre e apertou o botão para abrir o portão automático. No dia seguinte, as lojas, os bancos e os mercados acostumados a mesma paisagem de carros e gentes logo se adaptaram ao sumiço de mais uma cidadã.

Não era a rua misteriosa, muito menos a dona das pernas compridas e dos joelhos de fora, e uma cumprimentava a outra num silêncio que só as duas entendiam, e se espelhavam assim noites e dias.

Mas o desaparecimento pouco notado por muitos atiçou suspeita no zelador, que rapidamente comunicou ao porteiro, que logo alarmou os vizinhos e chegou aos ouvidos do síndico. Este morador antigo avisou à família da dona, que com ajuda do chaveiro invadiu o sala-quarto-banheiro-cozinha, e nada, corpo algum esperava resgate, nenhum vestígio, nenhuma pista. 

Desconfiados, ligaram para hospitais, IML, polícia, parentes até do interior, e ninguém ouvira falar daquele nome, daquela senhora de pernas compridas e joelhos de fora que aos oitenta anos escapou da própria rotina.

Na família, três ligações por ano eram certas assim como um encontro no natal, depois cada um por si ou todos contra todos. A vida seguia assim, ela com a sua aposentadoria e a tranquilidade do lar e os filhos com seus empregos, filhos, imóveis, carros, computadores e sempre muito ocupados em suas viagens, férias, jantares, compras, contas, o corre-corre do dia a dia.

O sumiço foi noticiado na tv, e já havia até pagamento de resgate, divulgado pelo filho mais velho, que há dez anos morava no exterior, e ao saber do ocorrido voltara especialmente para salvar a mãe querida. 

A comoção se tornou nacional, cartazes e caixas de leite espalhariam o último retrato da senhora de pernas compridas e joelhos de fora. Tinha feito setenta nove anos naquele natal, estava lúcida, calma e muito calada naquela data, contaram os parentes, apenas pedira para tirarem uma foto das pernas, que "apesar da idade ainda se mantinham jovens". O neto caçula que chamava todos de "véio" e achava que tudo era "massa", empunhou logo a câmera do celular e fez a vontade da anciã, que alongou mais ainda as pernas brancas e compridas e exibiu os róseos joelhos a sorrir.

Desde criança viveu sem grandes alardes, cresceu, casou com um militar escolhido pela família, e logo se afeiçoou a rotina do companheiro, ao jeito duro e brincalhão. Criou sete filhos com um bom dinheiro e pouca liberdade, até que o marido se foi, e a escola, o trabalho e o mundo também levou as crianças. Aos sessenta anos estava à sorte, ainda procurou vínculos, escreveu, ligou, visitou, mas em vão, ninguém tinha tempo ou afeto. Em vida, resolveu didivir alguns imóveis da família, para evitar briga, e durante algum tempo, ela e os filhos tiveram um bom assunto em comum. Dividos os bens, diminuíram os contatos.

Um ano se passou, os jornais substituíram essa senhora de pernas compridas e joelhos de fora por outras notícias, o filho mais velho voltou ao exterior, os outros seis filhos pararam as buscas, mas, conservaram o pequeno apartamento, caso ela voltasse.

E até hoje, nas reuniões de natal, nos e-mails e telefonemas trocados, não falam sobre outro assunto que não seja esta senhora, não há choro nem saudade, já nem lembram de sua fisionomia, mas reclamam:"A mamãe nunca teria coragem para tanto! Sumir, assim, sem deixar vestígios!" 

O fato é que o caso mudou para sempre a rotina dos vizinhos, todo mundo passou a andar ressabiado... Teve gente que parou de sair depois das cinco, com medo de desaparecer também.

A rua? Continuou ali, sem sair do mesmo lugar, a guardar todos os segredos, o zelador e o porteiro a desconfiar dos moradores, e o síndico a recolher uma boa quantia por mês para garantir a sua segurança.

É claro que na época dos anúncios, algumas senhoras apareceram dizendo que eram a tal, exibindo pontiagudos, achatados, ossudos joelhos, pernas curtas, grossas, magras, finas demais, mas ninguém convenceu aos filhos e aos vizinhos.

Esta senhora sumiu como um cisco, deixando para mim apenas suas pernas compridas e os joelhos de fora.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A terceira margem de Rosa também é minha



ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1985.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sem sinal

Tanto tempo se passou
Eu fiquei aqui
Você não ligou
Eu me distraí
Assistindo o capítulo do meu fim

Para não te ver mais

Foi preciso não andar pelas ruas de dia
Evitar os sinais dos meus livros antigos
Apagar essa história de vida partida
E voltar a viver novo ciclo de risco