Um olhar para Clarice
Em Laços de Família (1960), Clarice Lispector apresenta treze
narrativas que tratam numa linguagem de aparência simples questões
relacionadas ao feminino articulado ao masculino, e relações de
aprisionamento.
É possível observar um monólogo interior em alguns dos contos como o caso de “A imitação da rosa” e observar a relação do sujeito com a realidade exterior de acordo com a sua percepção de realidade.
O discurso indireto, o fluxo de consciência, o papel da palavra como mediador entre o sujeito e a realidade, onde a autora parece questionar a capacidade de expressão da linguagem, e os limites que a palavra impõe ao desejo de conhecimento e autoconhecimento com o outro também estão presentes, assim como, a ambiguidade no texto e a voz autoral que joga com o leitor.
É possível observar um monólogo interior em alguns dos contos como o caso de “A imitação da rosa” e observar a relação do sujeito com a realidade exterior de acordo com a sua percepção de realidade.
O discurso indireto, o fluxo de consciência, o papel da palavra como mediador entre o sujeito e a realidade, onde a autora parece questionar a capacidade de expressão da linguagem, e os limites que a palavra impõe ao desejo de conhecimento e autoconhecimento com o outro também estão presentes, assim como, a ambiguidade no texto e a voz autoral que joga com o leitor.
No entanto, para a crítica Lúcia Helena (2010), em Nem musa, nem
medusa, existem três questões fundamentais no pensamento
ocidental que estão na obra de Clarice Lispector: o sujeito, a
escrita e a história. Ainda para Lúcia Helena, o discurso literário
de Clarice se faz em diálogo com o Realismo/Naturalismo, o
Romantismo/ Simbolismo.
A marca de um sujeito feminino também é flagrante na obra de Lispector, e a crítica discute como a escritora lida com a questão do gender, sem, contudo, escrever uma escrita feminista.
A marca de um sujeito feminino também é flagrante na obra de Lispector, e a crítica discute como a escritora lida com a questão do gender, sem, contudo, escrever uma escrita feminista.
Segundo Bailey e Zilberman(2007), Helena enfatiza a desconstrução do discurso falocêntrico e
da lógica realista de representação, pois Clarice Lispector
transgride gêneros narrativos e limitações de gênero (gender). E
ainda, Lúcia Helena ressalta a opção de Lispector por uma forma de
“realismo não-descritivo”, em que as personagens vivem
situações-limite à margem do tempo linear. O texto é universal em
tema, porém, é também histórico e local ao tratar os papéis do
gênero e da opressão da mulher.
Para Lúcia Helena, Lispector discute em suas narrativas a questão
da inscrição do sujeito na história e sublinha com ênfase e
fascínio, a inscrição em particular de um sujeito declinado ao
feminino. De acordo com a crítica há duas correntes da estética
feminista, uma, que traz consigo um discurso feminista, a
anglo-americana, onde o texto é um instrumental para uma reflexão
com vistas a um pragmatismo político feminista, e outra, a francesa,
que engendra em sua teoria a ideia de uma écriture féminine e
observa as marcas do feminino no texto literário, seja ele de
autoria feminina ou masculina.
No entanto, Lúcia Helena aponta para o risco de determinar que a escrita de Clarice se inscreva em uma ou em outra, pois se a primeira trata de um discurso feminista, a segunda, traz consigo um determinismo biológico, no qual o corpo da mulher como sinônimo da escrita feminina, reflete sobre uma espécie de fenda e vazio de acordo com as características biológicas dos corpos. Contudo, ainda que Lispector recuse, sua escrita obra é capaz de fazer refletir sobre alguns impasses pela teoria feminista.(HELENA, 2010, p.89).
No entanto, Lúcia Helena aponta para o risco de determinar que a escrita de Clarice se inscreva em uma ou em outra, pois se a primeira trata de um discurso feminista, a segunda, traz consigo um determinismo biológico, no qual o corpo da mulher como sinônimo da escrita feminina, reflete sobre uma espécie de fenda e vazio de acordo com as características biológicas dos corpos. Contudo, ainda que Lispector recuse, sua escrita obra é capaz de fazer refletir sobre alguns impasses pela teoria feminista.(HELENA, 2010, p.89).
Para Lúcia Helena, no entanto, a narrativa de Lispector se afasta
da tradição patriarcal que informa o quadro conceitual de gender de
se tornam reclusas as suas personagens (femininas e masculinas). E ao
desestabilizar os estereótipos de gender e as formas de articulação
do poder , instalados pelo patriarcado, a escritora rasura as bases
do essencialismo. (HELENA, 2010, p.93).
De acordo com a crítica, a obra de Lispector trata da condição
da mulher ao inscrevê-la como sujeito da estória e da história e
não se limita a espelhar o mundo patriarcal e denunciá-lo, pois
realiza o questionamento das relações entre a literatura, a
realidade e a sociedade. (HELENA, 2010,p.96).
Para Helena, o tema da emergência do feminino é flagrante na obra de Lispector, onde é articulada a opressão da mulher e do feminino, fora de um discurso feminista, mas o feminino como sujeito da história, que a história do patriarcado reprimiu. Contudo, é uma estética de reflexo, e o que sua obra pretende é produzir sentidos.
Para Helena, o tema da emergência do feminino é flagrante na obra de Lispector, onde é articulada a opressão da mulher e do feminino, fora de um discurso feminista, mas o feminino como sujeito da história, que a história do patriarcado reprimiu. Contudo, é uma estética de reflexo, e o que sua obra pretende é produzir sentidos.
Dessa forma, Laços de Família, que traz à tona protagonistas
velhas, maduras e adolescentes, com exceção dos três contos: “O
crime do professor de matemática,” “Começos de uma fortuna”
e “O jantar”, nos quais os protagonistas são homens, mostra o
universo de mulheres movidas por paixões, assustadas e reprimidas e
os laços de família se de um lado mostram o afeto, de outro lado,
exibem o aprisionamento.
Segundo Lúcia Helena, a autora lida com a linguagem e o projeto de
reflexão, lida com o subterrâneo da linguagem, promovendo um
diálogo entre o material reprimido, que obscurece o mundo dos
personagens e os papéis sociais, em geral restritos, que lhes foram
dados a viver. Assim lidamos com Ana (O amor), com Laura (A imitação
da rosa), Dona Anita (Feliz Aniversário), Catarina e Severina (Laços
de família) e tantas outras mulheres deste livro ou de outros como
Macabéa em A hora da estrela.
Lúcia Helena ainda ressalta que Lispector sente a necessidade de
discutir em suas obras a tradição realista de caracterizar com
detalhes ambientes, circunstâncias e personagens para dar-lhes
dimensão e consistência tão comum no realismo e o no naturalismo,
no entanto, para a escritora, que cria seres inquietos, há uma
criação de um realismo às avessas, vinculado às impressões do real,
trabalhando as contradições de ser e não ser uma escritora
realista, uma vez que não registra fatos, mas narra impressões.
Todavia, para a crítica, o projeto de Laços de Família é mais
realista, e Clarice no conjunto de sua obra ora retrabalha a tradição
realista e naturalista, ora evoca insights românticos e
simbolistas, retrabalha o mundo fantasmático, onírico, e por
vezes enlaça o humano ao não-humano.
Segundo a crítica, outro aspecto a ser ressaltado na obra de
Lispector é o perfil de mulher. Sua personagem feminina está quase
sempre retida num espaço de ruminação interior, a remoer uma vida
vazia, nas estreitas dimensões de um quarto ou de uma casa. E mesmo
no encontro com o inesperado, só é possível através de uma
janela, como no conto “Mistérios em São Cristóvão”, em que a
jovem filha do casal se depara com três homens com máscaras de
animais e causa um grande alarme em toda a família. Em “A imitação
da rosa”, ocorre, por exemplo, na sala, onde está o vaso com as
rosas.
Por causa dessa situação de confinamento, Lúcia Helena expõe que
as personagens parecem simbolicamente questionar o mundo patriarcal,
em que os limites (de dentro e de fora) estão culturalizados e
genderizados, cabendo, por tradição, à mulher o espaço interno e
ao homem o espaço público.
Os trezes contos de Laços de Família, segundo Lúcia
Helena, podem ser divididos em problemas enfrentados por adolescentes
que confrontam a fantasia e a realidade do sexo (“Preciosidade”),
ou insatisfações de mulheres maduras que se relacionam de modo
precário com os maridos e filhos (“Amor”) e a festa de
aniversário de uma senhora que ao completar oitenta e nove anos
observa impotente a sagração do desafeto familiar (“Feliz
aniversário”). A única exceção está no conto “A menor mulher
do mundo”, onde a Pequena Flor vive em plenitude na África. No
entanto, neste conto é possível ver uma espécie de crítica e
relação de sujeito-objeto nas reações das pessoas que lêem a
matéria no jornal sobre a Pequena Flor, e por ela ser uma pigméia
com apenas quarenta e cinco centímetros e grávida, é vista por
muitos como um objeto e não como uma pessoa, não como uma mulher.
O conto “Uma galinha” também parece trazer consigo bastante
simbolismo, posto que na tentativa de fugir, a galinha acaba por ser
pega e só não morre porque bota um ovo, desse dia em diante, a
galinha continua a viver aprisionada àquela família até ser
comida.
Em “A imitação da rosa” é possível observar o fluxo de
consciência, o quase mutismo da mulher e a sua relação com as
rosas e com o cristianismo levada ao extremo. As repetições em
pensamento do que deve fazer, vestir, do que a amiga Carlota irá
pensar dela exibe sua obsessão pela perfeição e seu confinamento e
medo. E essa espécie de tortura silenciosa só se dá porque ela deve se
aprontar e sair com o marido Armando para juntos jantarem com um
casal de amigos.
Para Lúcia Helena é possível inclusive ver uma divisão em quem
narra e quem focaliza no conto, e isso é o que permite o leitor
seguir e interpretar a metamorfose de Laura que chega a uma repetição
doentia. E à medida que a tensão interior cresce, uma progressiva
cadeia metafórica é construída, ligando Laura e as rosas, mas
indicando a fragmentação da personagem. As rosas são mostradas
tanto pelo narrador como por Laura, a focalizadora. Tudo se passa de
tal maneira que parece que Laura e as rosas passam a se fundirem,
criando, de acordo com Lúcia Helena, um elo de erotismo e prazer, no
qual o desejo de Laura se dá a partir da imitação do desejo das
rosas.
Vale ressaltar que o narrador apresenta ao leitor o que Laura, vê,
pensa e sente e a percepção de Laura é apresentada por vezes num
discurso indireto. E por mais que tenha atração pelas rosas, Laura
não consegue reter para si toda aquela luminosidade e beleza,
apresenta seu eu fragmentado e luta entre seu medo e desejo de imitar
Cristo e as rosas, e essa tensão interior evoca a ideia de homens e
mulheres que lutam com seus papeis preestabelecidos no patriarcado.
De acordo com Lucia Helena, como alegoria, o corpo de Laura tem ainda
um papel na sociologia do mundo e exibe em sua representação uma
história recalcada. No conto podemos observar que esta personagem quase não
fala, e só espreitamos o seu pensamento através do narrador.
Numa outra leitura da escrita de Clarice, Bailey e Zilberman (2007) tratam da
questão da palavra na obra de Clarice e afirmam que a escritora torna
sua linguagem mais fragmentada e evocativa ao se aproximar de outras
artes – música, pintura - , e utiliza o silêncio como forma de
comunicação. Há uma relação entre a
linguagem e a condição humana filosófico-existencialista. Para
Antonio Candido, a autora procura “fazer da ficção uma forma de
conhecimento do mundo e das ideias.” (CANDIDO, 1970, p.126). Por isso, de acordo Bailey e Zilberman (2007), a percepção de si e da realidade
mediante a problematização da linguagem está insuficiente e
imperfeita, pois, a palavra como objeto e
instrumento busca exprimir o inexprimível.
Dessa forma, entre uma escrita que evoca tanta reflexão sobre os
papéis sociais, sobre os aprisionamentos, sobre o feminino
articulado com o masculino, sobre a palavra como instrumento e a
comunicação, Clarice Lispector não se restringe aos gêneros
literários, traz o insólito unido a uma espécie de real em seus
textos, e contribui com uma escrita moderna, na qual o tema do
feminino marca sua presença na história da literatura.
CANDIDO, Antonio. No Raiar de Clarice Lispector. In: _____. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.
HELENA, Lucia. Nem musa, nem medusa: itininerários da escrita de Clarice Lispector. 3ª Edição. Niterói: EdUFF, 2010.
LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
BAYLEY, Cristina Ferreira-Pinto; ZILBERMAN, Regina (org.).Clarice Lispector: novos aportes críticos. Pittsburgh: University of Pittsburgh, 2007.
CANDIDO, Antonio. No Raiar de Clarice Lispector. In: _____. Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1970.
HELENA, Lucia. Nem musa, nem medusa: itininerários da escrita de Clarice Lispector. 3ª Edição. Niterói: EdUFF, 2010.
LISPECTOR, Clarice. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
BAYLEY, Cristina Ferreira-Pinto; ZILBERMAN, Regina (org.).Clarice Lispector: novos aportes críticos. Pittsburgh: University of Pittsburgh, 2007.
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