sábado, 12 de dezembro de 2009

Acontece

Zero, me esforçava para pensar, e começava a desconfiar de que eu não pensava, ou que só pensava em pensar, o fato é que a viagem durou cerca de três horas e eu buscava um assunto que interessasse mais que a janela do ônibus, as pessoas com seus diferentes pés e narizes, e os prédios calados e suspensos na Avenida Presidente... Como era mesmo o nome? Me faltava... e foi assim a viagem inteira, tentava lembrar do livro Cem anos de...de quê mesmo? Do Gabriel Ga...Ga... Ah deixa pra lá. Não lembrava. Me vinha a frase daquele poeta conhecido - se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução - mas como era mesmo o nome dele, aquele de Minas, Carlos...? E agora José? Foi um dia inteiro de zero, desci do ônibus, e não conseguia lembrar como chegar à repartição, só sabia a metade do nome da rua, a metade do número, e a metade do caminho, fiquei então parada um tempo em frente à banca, tentando lembrar o que perguntar, e nada. Avenida Presidente o quê, afinal? No fim da tarde, me vi sentada num banco da praça... você sabe, aquela praça, e um rapaz passou por mim e me perguntou as horas, olhei para o relógio e vi que eram seis e...eu olhei para o ponteiro pequeno junto com o grande no seis em algarismo romano, e lembrei de quando era pequena, tinha 4 anos e aprendi a ver a hora no relógio grande da cozinha, mas não conseguia dizer naquela hora...seis e...depois de duas ou três tentativas, disse que eram seis horas, e o rapaz se contentou com a resposta. Não sei o que se passava, o fato é que eu agora estava pela metade. Naquela noite tentei lembrar o ônibus para voltar à casa, mas eu só lembrava do número nove, do meu endereço só lembrava de céia. Mas que danado era céia? Tentaram me ajudar, mas foi difícil, e eu já não sabia se estava falando o nome do bairro, da rua, ou o apelido de alguém da família. Não tinha celular nessa época e eu passei a noite inteira na rua, comi um hot e paguei com uma nota de dois. Na manhã seguinte, percebi que meu esquecimento avançara, e que eu sabia agora de mim menos que a metade, pois quando fui acordada por um guarda, e ele perguntou meu nome, eu disse Va...Va...Va, e fui presa na mesma hora por desacato à autoridade.

Desaparecidos


Foi na noite de quinta-feira que esta senhora, de pernas compridas e joelhos de fora, saiu de casa e desapareceu, os vizinhos não viram, o porteiro acenou como sempre e apertou o botão para abrir o portão automático. No dia seguinte, as lojas, os bancos e os mercados acostumados a mesma paisagem das gentes, dos carros e dos ônibus logo se adaptaram ao sumiço de mais uma cidadã.
Não era a rua misteriosa, muito menos a dona dos joelhos de fora, e uma cumprimentava a outra num silêncio que só as duas entendiam, e se espelhavam assim noites e dias.
Mas o desaparecimento pouco notado por muitos atiçou suspeita no zelador, que rapidamente comunicou ao porteiro que logo alarmou os vizinhos e chegou aos ouvidos do síndico. Este morador antigo avisou a família da dona, que com ajuda do chaveiro invadiu o sala-quarto-banheiro-cozinha, e nada, corpo algum esperava resgate, nenhum vestígio, nenhuma pista. Desconfiados, ligaram para hospitais, IML, polícia, parentes até do interior, e ninguém ouvira ou vira aquele nome, aquela senhora de pernas compridas e joelhos de fora que aos oitenta anos escapou da própria rotina.
Na família, três ligações por ano eram certas assim como um encontro no natal, depois cada um por si ou todos contra todos, a vida seguia, ela com a sua aposentadoria e os filhos com seus empregos, filhos, imóveis, carros, computadores e sempre muito ocupados com suas viagens a negócios, férias, jantares, compras, contas e correria.
O sumiço foi noticiado na tv, e já havia até pagamento de resgate, divulgado pelo mais velho que há dez anos morava no exterior e ao saber do ocorrido voltara especialmente para salvar a mãe querida. A comoção se tornou nacional, cartazes e caixas de leite espalhavam o retrato da senhora loura, de pernas compridas e joelhos de fora, na foto ela parecia sorrir, tinha feito setenta nove anos naquele natal, estava lúcida, calma e muito calada naquela data, mas quando um neto apontava o celular para registrar uma foto no álbum virtual da família, crescia-lhe um sorriso e os olhos de esmeralda apareciam.
Desde criança viveu sem grandes alardes, cresceu, casou com um militar escolhido pela família, e logo se afeiçoou a rotina do companheiro, ao jeito duro e brincalhão. Criou sete filhos com um bom dinheiro e pouca liberdade, até que o marido se foi, e o a faculdade, o trabalho e o mundo também levou os jovens. Aos sessenta anos estava à sorte, ainda procurou vínculos, escreveu, ligou, visitou, mas em vão, ninguém tinha tempo ou afeto, partilhara ainda alguns imóveis da família, e depois disso menor ainda se tornou o porquê do contato.
Dois anos se passaram, os jornais substituíram-na por outras notícias, o filho mais velho voltou para o exterior, os outros pararam as buscas, conservaram, no entanto o pequeno apartamento, caso ela voltasse, e até hoje nas reuniões de natal, nos e-mails e telefonemas trocados se perguntam sobre esta senhora, não há choro ou saudade, mas espanto:"A mamãe nunca teria coragem para tanto!" Mas o caso para os estranhos causou desconforto e até pranto, alguns vizinhos andam agora com mais cuidado, alguns nem saem depois das sete da noite com medo de desaparecerem também. A rua continua ali, a guardar todos os segredos, o zelador e o porteiro a desconfiar de todos os moradores e o síndico a recolher uma boa quantia por mês que garanta segurança ao prédio e ao seu ordenado.
É claro que na época dos anúncios, algumas senhoras apareceram dizendo que eram a tal, mas nenhuma convenceu os filhos e os vizinhos. Esta senhora sumiu como um cisco, num momento repentino, deixando apenas no prédio e para o narrador as pernas compridas e os joelhos de fora.