Por uma escrita fantástica
Escritor, professor e tradutor de russo, Rubens Figueiredo teve suas primeiras publicações no final dos anos 80, e conta com algumas premiações, entre elas: o Prêmio São Paulo de Literatura e o Portugal Telecom em 2011, pelo romance Passageiro do fim do dia (2010). Além das obras citadas, Rubens publicou O mistério da samambaia bailarina (1986), A festa do milênio (1990), Barco a seco (2001), Contos de Pedro (2006). Autor, pouco estudado na academia, em suas obras, romances ou contos, revela uma escrita na qual o mistério e ambiguidade se fazem presentes. A ambiguidade é um traço marcante da prosa de Rubens Figueiredo.
Na metalinguagem utilizada por Rubens Figueiredo, assim como, por Borges, é possível observar uma narrativa em construção, num caminho interminável de uma obra dentro de uma obra que move o leitor para dentro do labirinto, numa espécie de mise en abîme, no qual o jogo ficcional parece se estender até o infinito.
A reescrita do fantástico na contemporaneidade proposta por Rubens parece se aproximar também do que chamamos fantástico moderno, onde é possível verificar atrás do absurdo uma espécie de crítica social. E se antes, o fantástico, principalmente no século XIX, tratava do sobrenatural, na modernidade e contemporaneidade, parece tratar das questões e dos problemas humanos, sem deixar de se opor à ideologia da época. Segundo Ceserani, Rosemary Jackson aponta para um fantástico social e psicanalítico que podemos ler na obra de Figueiredo. Para Jackson, o fantástico [...] não inventa razões sobrenaturais, mas apresenta um mundo natural rodeado por qualquer coisa de estranho, qualquer coisa de “outro”. Torna-se “doméstico”, humanizado, abandonando as explorações transcendentais pelas transcrições da condição humana (JACKSON, 1988 apud CESERANI, 2006:62).
A partir da expressão “fantástico contemporâneo”, cunhada por Flávio Carneiro, é possível refletir sobre uma reescritura da narrativa fantástica, não como uma paródia, mas como uma estratégia ficcional para a reinvenção do fantástico na atualidade. Na literatura brasileira, o fantástico contemporâneo pode ser visto em algumas obras de Rubens Figueiredo, Sérgio Sant’Anna, Adriana Lunardi, Max Malmann, entre outros.
Pretendemos observar então como a narrativa de Rubens Figueiredo se inscreve no fantástico contemporâneo ao dialogar com o fantástico do século XIX, que chamaremos de fantástico clássico, analisado por Todorov, e com o fantástico da primeira metade do século XX, que chamaremos de fantástico moderno, no qual se destaca a obra de Kafka.
Em Introdução à Literatura Fantástica, Todorov afirma (2008:47-48): “o fantástico, como vimos, dura apenas o tempo de uma hesitação: hesitação comum ao leitor e à personagem, que devem decidir se o que percebem depende ou não da 'realidade', tal qual existe na opinião comum.” É na ambiguidade que o fantástico acontece, quando a personagem hesita entre o evento sobrenatural e a explicação racional. “O fantástico implica pois uma integração do leitor no mundo das personagens; define-se pela percepção ambígua que tem o próprio leitor dos acontecimentos narrados”(TODOROV, 2008:37).
No entanto, se a ambiguidade é uma característica marcante nas narrativas fantásticas, sobretudo no século XIX, é possível observar uma mudança no século XX, e segundo Todorov, essa mudança tem seu marco n' A metamorfose, de Franz Kafka. Para Todorov, se antes o fantástico se dava na hesitação do leitor entre o real e o sobrenatural, a partir da obra de Kafka o absurdo é naturalizado no interior da narrativa, e o leitor se adapta. “É o leitor que sofre aqui o processus de adaptação: colocado inicialmente diante de um fato sobrenatural, acaba por reconhecer sua naturalidade” (TODOROV, 2008:180-181).
Para Sartre, em “Aminadab ou o fantástico considerado como uma linguagem” é possível observar que o romance O castelo, de Kafka, trata, antes de tudo, do homem como um ser fantástico num mundo “às avessas”. Se antes o fantástico tratava de eventos sobrenaturais, na modernidade e contemporaneidade é possível ver o retorno ao humano. Segundo Sartre (2005: 112): “[...] para encontrar um lugar no humanismo contemporâneo, o fantástico vai se domesticar como os outros, vai renunciar à exploração das realidades transcendentes e resignar-se a transcrever a condição humana”.
As narrativas de Rubens Figueiredo selecionadas nesta pesquisa parecem reunir elementos do fantástico clássico e do fantástico moderno, e trazem à tona, através do insólito, questões existenciais. O desejo, a compulsão, a obsessão pelo outro, o duplo, crimes e violações, em suma, os fantasmas da humanidade, podem ser observados em O livro dos lobos e As palavras secretas, de Rubens Figueiredo.
Escritor, professor e tradutor de russo, Rubens Figueiredo teve suas primeiras publicações no final dos anos 80, e conta com algumas premiações, entre elas: o Prêmio São Paulo de Literatura e o Portugal Telecom em 2011, pelo romance Passageiro do fim do dia (2010). Além das obras citadas, Rubens publicou O mistério da samambaia bailarina (1986), A festa do milênio (1990), Barco a seco (2001), Contos de Pedro (2006). Autor, pouco estudado na academia, em suas obras, romances ou contos, revela uma escrita na qual o mistério e ambiguidade se fazem presentes. A ambiguidade é um traço marcante da prosa de Rubens Figueiredo.
Já no primeiro romance, O mistério da samambaia bailarina, que lembrava ainda certo experimentalismo dos anos 70, aliado a um humor que iria persistir até a publicação de O livro dos lobos, é possível observar um apreço especial pela dissimulação, pelas pistas falsas, como numa espécie de quarto espelhado, onde uma imagem remete não ao objeto real mas a outra imagem.[...] A dúvida se converte em elemento da escrita, e isso talvez ajude a entender a recorrência do tema do duplo, que já está em alguns contos de As palavras secretas e reaparece em Barco a seco (CARNEIRO, 2005:74).
As obras de Rubens Figueiredo também são marcadas pela metalinguagem, por narrativas que parecem não ter fim ou que retornam ao começo, como no movimento do uróboro - “a serpente que morde a própria cauda ou como belamente diria Martínez Estrada: ‘que começa no fim da cauda’. Uróboro (aquele que devora a própria cauda) é o nome técnico desse monstro, mas tarde tão caro aos alquimistas” (BORGES, 2008:210).
Na metalinguagem utilizada por Rubens Figueiredo, assim como, por Borges, é possível observar uma narrativa em construção, num caminho interminável de uma obra dentro de uma obra que move o leitor para dentro do labirinto, numa espécie de mise en abîme, no qual o jogo ficcional parece se estender até o infinito.
A reescrita do fantástico na contemporaneidade proposta por Rubens parece se aproximar também do que chamamos fantástico moderno, onde é possível verificar atrás do absurdo uma espécie de crítica social. E se antes, o fantástico, principalmente no século XIX, tratava do sobrenatural, na modernidade e contemporaneidade, parece tratar das questões e dos problemas humanos, sem deixar de se opor à ideologia da época. Segundo Ceserani, Rosemary Jackson aponta para um fantástico social e psicanalítico que podemos ler na obra de Figueiredo. Para Jackson, o fantástico [...] não inventa razões sobrenaturais, mas apresenta um mundo natural rodeado por qualquer coisa de estranho, qualquer coisa de “outro”. Torna-se “doméstico”, humanizado, abandonando as explorações transcendentais pelas transcrições da condição humana (JACKSON, 1988 apud CESERANI, 2006:62).
Rubens Figueiredo parece reescrever o fantástico de forma inventiva ao dialogar com vários elementos do fantástico clássico e moderno, e com outras artes, com destaque para a pintura. Dono de uma escrita precisa e enxuta, por vezes poética, na qual as palavras e as imagens parecem ser milimetricamente escolhidas, o autor convida o leitor a adentrar o espaço ficcional e partilhar do fantástico na contemporaneidade.




Nenhum comentário:
Postar um comentário