segunda-feira, 26 de abril de 2010

Quase gêmeas

Pintura de Alberto da Veiga de Guingnard
...Riram as irmãs quase gêmeas, que pareciam copiar uma o gosto da outra, e passavam horas ao espelho espiando novos sinais, marcas de família e os seios filhotes que lhes brotavam das blusas...Lúcia sentia as dores de um torcicolor que ganhara ao espiar o rapaz esguio, de nariz comprido que passava às sete da manhã ao pé de sua janela...E Carmen só tinha olhos e pensamentos para Olavinho, seu vizinho da casa geminada à direita. Queixo quadrado, olhos oblíquos, lábios finos, cabelos lisos, negros, modelados com brilhantina...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Quando você não vem

Madrugada quase e viva eu sem fome quando você não está...Me aproximo da geladeira que oferece queijos, iogurtes, almoços e jantares, mas os meus olhos recusam sem a tua presença...A mesa parece grande, os talheres adquirem um peso jamais pensado e o prato vazio parece espiar o meu ser a fundo. Apago a luz e vou dormir, sentindo uma pequena fisgada perto do ventre e um aperto grande no coração.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Chove no dia 6 de abril no Rio - Desabafo

Mal dá para mexer os ossos, aqui em Copacabana o vento entra pelos buracos das janelas, sim, porque ele não entra pelas frestas, mas pelos buracos da esquadria, vasculha a roupa, penetra na pouca carne e pele e se estende até os ossos. Tremo ao digitar as poucas tintas de memória que me restam neste outono já glacial. Dormir e ler parecem o único remédio, tocar flauta parece impossível, meus lábios estão enrigecidos além de arroxeados. Chove muito lá fora e aqui dentro parece que uma dor comove o corpo magro-fraco e seca a fala. Rio e Niterói em estado de calamidade, pessoas sendo levadas junto com suas casas, tudo num jato de tempo, sem deixar ninguém sair, fugir ou respirar. No entanto, dormimos ainda no manso cobertor-edredon, enquanto tantos afundam suas identidades num mar de terra e sufocam até não mais pensar.