Mia Couto



PELO MAR DA PALAVRA


Mia Couto. Foto: Bel Pedrosa. (Paraty /RJ)
"Como ele sempre dissera: o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida."



A chuva pasmada (2004), escrita por Mia Couto, parte primeiramente de um evento insólito – uma chuva suspensa no ar - para em seguida fazer refletir sobre o espaço interno de uma família, suas crenças e relações. 

O retrato da família é então composto pelas lembranças escritas pelo narrador que divide com o leitor-ouvinte questões e invencionices de sua família, que indaga e descobre através da oralidade uma forma de manter a memória viva de sua gente, e que ao narrar o ocorrido parece voltar ao tempo presente. 

A narrativa não usa o recurso de idas ao passado e voltas ao presente, pelo contrário, segue o seu curso, e só no final nos deparamos com o narrador-escritor, que é desde o início o contador de histórias. 

Na voz do menino, conhecemos o pai, um trabalhador das minas que de lá volta com uma espécie de ausência de alma, e mal consegue se relacionar com a mulher e o filho. Descobrimos também a mulher, mãe do menino,  que deseja recuperar sua feminilidade esquecida e, sofre com a ausência de alma do marido. 

 A tia, irmã da mãe, que reza e vai à igreja, e tenta se consolar do martírio de não ter homem. O avô viúvo e a definhar que vive amarrado a uma cadeira para não se deixar levar pela brisa. 


O avô representa a figura do griôt, o contador de histórias, o detentor da memória, para quem a palavra é sagrada. O avô é o inventor e quem mais dedica atenção ao neto, também é ele quem revela a lenda da Ntoweni, que trata da vida e da morte e parece passar a missão de contador de histórias para o neto.



No povoado de Sembora não só a chuva está pasmada, mas o rio também está seco, e a mãe atribui o problema à fábrica de fumos e insiste que o marido vá até lá resolver o problema com os homens brancos. 

No decorrer da narrativa, no entanto, permeada por crenças e paisagens poéticas, percebemos que os problemas da família parecem se refletir na natureza e, só quando são resolvidos, a chuva se deixa cair.Cada personagem da família, por sua vez, dá um motivo diferente para a chuva não cair, o avô acha que a chuva não cai por algum feitiço, depois atribui a culpa à filha que não se casou, por último crê que a chuva pasmada representa a avó do menino - Ntoweni – que o espera. A mãe do menino atribui a culpa à fábrica de fumos, e a tia acredita que a culpa é sua por não ter se casado, mas também acha que é um castigo de Deus pelos pecados de todos. Para dar fim ao problema que abate o povoado, a mãe do menino oferece então seu corpo em sacrifício para o homem branco, o dono da fábrica de fumos, mas ele a rechaça, a manda se perfumar, repudiando o seu cheiro, apenas pelo fato da mulher ser negra.  
                                                                                                                                                                       
É isso, no entanto, que impede o sacrifício da mãe do menino, que impede a mulher de trair o marido, e evita também uma desgraça, pois o marido, diante da suspeita de traição, sai de casa para matar a esposa. Ao saber que a mulher não o traiu, o homem acaba por se acertar com ela e parece recuperar a alma. 

A fábrica para de funcionar e soltar fumaças. A tia compreende que a culpa não é sua. E o avô que tentava adiar a morte, pede para o neto o levar de barco até o rio seco, este o faz com a ajuda do pai. O pai, por sua vez, recupera a relação com o filho. A chuva volta a cair, o rio volta a se encher, e o barco do avô que nunca conhecera o mar parte para não mais voltar.

Quando a mãe do menino vai à fábrica, Mia Couto ressalta o problema racial na relação do menino branco que não pode brincar com o narrador, por esse ser negro e como a África é vista pelos outros como uma terra de doenças. Observemos na passagem abaixo o diálogo entre o narrador e o filho do dono da fábrica: 
                                                                                            
                                                                                                                              
- Não quer jogar, menino?
- Não posso.
- Por quê? 
- O meu pai não deixa. Não me deixa brincar com... com vocês.
-Eu já sabia. Só não disse a palavra: pretos. Nós éramos simplesmentevocês”. Juntei os berlindes numa mão e entreguei-lhos. 
- Brinque o menino sozinho. Eu fico só assistir.
- Não posso. A minha mãe não me deixa brincar no chão. Essa terra de África dá doenças. (COUTO, 2012, p.28).


Moçambique
Outra passagem do texto mostra quando o menino branco leva a notícia ao pai do narrador que a mulher fora até a fábrica de fumos. E ao ser interrogado pelo narrador, o menino branco admite ter contado porque não queria que o seu pai – dono da fábrica- se deitasse com uma mulher negra.

- Quem mandou vir aqui, quem mandou dizer alguma coisa? 

- Meus pais não querem que eu brinque convosco. Eu também não posso pensar que o meu pai ande metido com... com uma preta [...] (COUTO, 2012, p.58).

Mais adiante, a mãe explica ao filho que não traíra o pai com o homem branco e que o dono da fábrica não suportava o seu cheiro.  

- Verdade, mãe? Esse branco não abusou da senhora
- Desde o primeiro dia, ele me desejou, sim. Mas o homem não era capaz. Disse-me que eu cheirava a minha raça.  
O branco ordenou que ela se devia perfumar. (COUTO, 2012, p.62).
                                                                                                                                                   

Mas se a narrativa de Mia Couto traz consigo a tradição oral, é através do homem mais antigo da família, o avô, que temos acesso aos ancestrais, que descobrimos a lenda de Ntoweni, a avó da avó do menino, que morrera e com o seu sacrifício criara o rio. A história dessa família, ao que parece, se imiscua à chuva pasmada, a terra, ao rio, que revela as vidas que viveram antes, os antepassados. Abaixo lemos o diálogo entre o avô e o neto: 

- Não é uma história. É um segredo que corre na família.Escute com atenção.
- Eu escuto sempre com toda a atenção.
- Não é isso. É que vai ouvir a minha voz, no princípio. Depois, já no fim, escutará apenas a voz da água, a palavra do rio. (COUTO, 2012, p.37).

E mais adiante penetramos na história dentro da história, conhecemos a lenda Ntoweni, e nos deparamos com o segredo familiar que o avô revela. 

Na manhã seguinte, Ntoweni escapou por entre a poeira dos caminhos. Assim que deu pela sua ausência, o rei mandou que a seguissem. Quando ela se aproximava de sua casa, uma azagaia cruzou o espaço e se afundou nas suas costas. A cabaça subiu, desamparada, pelo ar e água se derramou, desperdiçada. Mas quando a vasilha se quebrou no chão, os céus todos estrondearam e um rasgão se abriu na terra. Das profundezas emergiu um rugido e uma imensa serpente azul se desenrolou dos restos da cabaça. Foi assim que nasceu o rio. (COUTO, 2012, p.42-43).

                                                                                                                             Os nomes das personagens, com exceção do nome da avó morta, não nos é revelado, assim, observamos apenas os arquétipos da família: o pai, a mãe, o filho, a tia e o avô. Os lugares, no entanto, diferente das personagens, têm seus nomes revelados: Sembora, vila onde vive a família, e Tsilequene, lugar da fábrica de fumos, o rio Guazi, onde o menino encontra a tia na ponte, a tentar ir embora do povoado. 

                                                                                                                                                  No início da narrativa quando todos indagam o porquê da chuva suspensa, o avô sugere que a causa seja algum feitiço, então todos os homens se juntam para tentar resolver, falam dos samvura, donos da chuva, fazem cerimônia, mas a chuva continua pasmada, suspensa no ar. Para o avô, isso se reflete como uma maldição que assola a família. 

                                                                                                                                                                                                         Os adultos, no entanto, apenas riam do avô achando que o mesmo delirava, mas o menino prestava atenção em tudo e gostava de imaginar. É esse menino imaginativo que por brincadeira se compara a chuva que não cai, e encontra assim uma forma de contar o problema logo no começo da narrativa.

A indecisão da chuva não era motivo para alegria. Ainda assim eu inventei uma graça: meus pais sempre me tinham chamado de pasmado. Diziam que eu era lento no fazer, demorado no pensar. Eu não tinha vocação para fazer coisa alguma. Talvez não tivesse mesmo vocação para ser. Pois ali estava a chuva, essa chamada e reclamada por todos e, afinal, tão pasmadinha como eu. Por fim, eu tinha uma irmã, tão desajeitada que nem tombar sabia. (COUTO, 2012, p.7). 
                                                                                                                                             Assim, o insólito se naturaliza nos ouvidos do leitor conduzido por vozes que tratam de forma corriqueira os acontecimentos fantásticos e creem nos deuses, nos feitiços e nas superstições, que são passados de geração em geração através da tradição oral. Assim, observar a história do menino é também olhar para a formação de uma cultura e a ficcionalização da memória proposta por Mia Couto.

A terra, o rio e a morte percorrem toda a narrativa, conforme o rio seca, como vemos, o avô deixa de comer e beber e parece se transformar em terra, ele caminha entre a vida e a morte, fala com a falecida, e definha a olhos vistos. Quando o mesmo pede para o neto levar o seu barco até o rio seco, fica clara a passagem da vida para a morte. 

Outra passagem nos remete se dá entre pai e filho quando o pai vai rezar diante da margem do rio seco e pede ao filho para ouvir o ruído debaixo da terra, como um pilão e afirma: “- São os deuses. Eles estão descascando o tempo para nos servir...”(COUTO, 2012, p.33). O pai ainda conta para o filho que lá estão enterradas as Ntowenis, as duas avós, e explica: “Dizem que elas, de noite, saem juntas. Sopram as cortinas, levantam as nossas pálpebras e nos insuflam os sonhos. É então que, por breves instantes, se vislumbram duas luas cruzando os céus” (COUTO, 2012, p.34).

Em vários momentos da narrativa observamos o elemento do maravilhoso no universo proposto pelo avô. O modo fantástico que compreende o maravilhoso a todo instante é evocado nas crenças, e no próprio fenômeno da chuva pasmada. Vale ressaltar, no entanto, que o estranhamento da família não se dá pelo fato sobrenatural, o que causaria uma tensão entre o evento insólito e a realidade. Não há em nenhum momento de hesitação entre as personagens e/ou entre o narrador, que é a única testemunha a nos contar tal história, pelo contrário, o fato é tratado com naturalidade, e neste sentido muito se aproxima do realismo mágico encontrado na narrativa latino-americana.

Não temos a hesitação diante do insólito evocada por Todorov em Introdução à literatura fantástica (1970), estamos antes no universo alucinado do maravilhoso, onde tudo é possível.

O avô amarrado à cadeira na varanda a falar com a esposa já falecida e a pescar no céu, nos faz recordar de José Arcadio Buendía em Cem anos de solidão(1967), de Gabriel García Marquez. Amarrado à castanheira no pátio, depois de ser considerado louco, o fundador de Macondo passa assim seus derradeiros anos, quase que esquecido pela família, a conversar com o defunto Prudêncio Aguilar.

Em A varanda do frangipani (2007), de Mia Couto, através das personagens do asilo e da narrativa do passa-noite, uma espécie de fantasma que nos conta a história, adentramos um espaço no qual não é possível distinguir o real do ficcional, a memória da memória inventada. 

N’A chuva pasmada, a crença na lenda de Ntoweni e a volta da chuva e do rio diante da resolução dos problemas da família também remete ao narrador à naturalização do fantástico no cotidiano. Deuses misturados às gentes, mortos misturados aos vivos através das forças da natureza, onde não é possível mostrar onde começa ou termina a invenção, o que é crença e o que é realidade. 
                                                                                                                                                                                                                                                                                  Por causa do fenômeno da chuva pasmada, os dramas pessoais de cada integrante da família vêm à tona e nos deparamos com a morte, adiada pelo avô, com a sensação de culpa da tia, com a impotência do pai, que diante dos problemas parece se ausentar, com o desespero da mãe que é capaz de se sacrificar pelo bem da sua família e com as descobertas do menino, que a tudo indaga, ouve e olha pela primeira vez.

É, no entanto, pela voz do narrador que relembra o acontecimento, que o leitor adentra o universo daquele povoado ficcional da África, e que experimenta por vezes uma espécie de narrativa fantástica, poética, ficcional e real. É através de uma África inventada que o leitor parece travar um encontro com uma parte da realidade da África, ainda que por outro viés.

Assim, envoltos num universo que parece maravilhoso, onde tudo pode acontecer, um universo onde deuses e demônios, terra, rio, morto e vivo se misturam, percorremos a narrativa miacoutiana e redescobrimos uma linguagem poética que muito se aproxima de Guimarães Rosa, inclusive na relação do pai com o filho, depois que o avô se vai pelo rio, que nos lembra “A terceira margem do rio”. O narrador afirma: “Ainda hoje meus passos se arrastam nessa travessia do rio, olhar perdido na outra margem”(COUTO, 2012, p.76).
                                                                                                                                                            Mia Couto também parece trazer à tona a invencionice poética e nos faz ver o poema que escorre da boca do avô para os olhos e ouvidos atentos do menino. Curioso observar também que tudo se entende e se compreende na narrativa A chuva pasmada, menos o colonizador, o homem branco que não se entende com o negro.

Por fim, o menino, agora homem feito, ao recordar toda a história parece compreender o desejo do avô:

Como ele sempre dissera: o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida.
 


Referências:


COUTO, Mia. A chuva pasmada. Portugal: Editorial Caminho, 2012.

COUTO, Mia. A varanda do frangipani. 4ª edição. São Paulo: Companhia da Letras, 2007.

MARQUEZ, Gabriel García. Cien años de soledad. Edicíon Conmemorativa. Real Academia Española, Asociación de Academias de la Lengua Española, España: Alfaguara, 2007.

TODOROV, TZEVAN. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2008.

ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio” In: Primeiras Histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.





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