Lendo A educação pela pedra
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| João Cabral de Melo Neto |
Por vezes o poeta também compara paisagens de Pernambuco com
lugares da Espanha e cria semelhanças e dissimetrias. A terra, o
rio, o mar e o canavial estão presentes em sua poesia assim como a
crítica e a consciência social. Contudo, além da beleza de suas
poesias e da consciência social, vários estudos se debruçam na
matemática utilizada pelo autor em cada livro. Por isso, neste
trabalho, com base na apresentação Eucanaã Ferraz e no estudo
teórico de Antonio Carlos Secchin, direcionamos o nosso olhar para
os temas propostos e para a rigorosa estruturação proposta por
Cabral.
Segundo Secchin, em Quaderna o primeiro poema “Estudos
para Uma Bailadora Andaluza” já apresenta os temas obsessivos do
poeta neste livro: “o corpo feminino e a terra espanhola”, também
é notória a comparação da terra espanhola com o nordeste, com
destaque para Pernambuco.1
Em relação ao feminino, o poeta, segundo Secchin, não recorre ao
“veio lírico-amoroso” e cria poemas eróticos a partir de “um
olhar distante, no qual o “eu se exclui como parceiro”, e o corpo
da “bailadora” é visto então como um “espetáculo plástico”.
Para Eucanaã Ferraz, a mulher neste livro representa uma novidade
temática na obra de Cabral, e para o estudioso, “Quaderna é
a apresentação de um certo encaminhamento construtivo, no qual os
poemas acionam modos de avaliação das suas próprias imagens, o que
expõe, até onde isso é possível, o processo de estruturação do
texto”2
(FERRAZ, 2008, p.10).
No primeiro poema desse livro, segundo Eucanaã,
o poeta “cria um dinamismo avesso ao repouso e à aceitação
passiva das imagens”, por isso a “bailadora” é comparada ao
“fogo”, a “espiga”, ao “livro” etc. De acordo ainda com
Eucanaã, o poema “inclui o leitor”, “propõe um papel ativo”
e se oferece como “objeto de conhecimento” (FERRAZ, 2008, p.10).
Abaixo segue uma estrofe do poema “Estudos para uma bailadora
andaluza”, que é dividido em seis partes, cada parte com oito
estrofes e cada estrofe com quatro versos:
Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua.
(MELO NETO, 2008, p.23).
Outro poema que destacamos neste livro é “De um avião”, no
qual é possível ver Pernambuco com suas formas cubistas, com suas
cores e linhas. Esse poema é dividido em cinco partes por algarismos
e cada parte tem oito estrofes, e cada estrofe quatro versos. Seguem
abaixo duas estrofes do poema. A primeira estrofe abaixo corresponde
a parte 3 e a segunda estrofe corresponde a parte 4.
Uma paisagem mais serena,
Mas estruturada, se avista:
Todas, de um avião,
São de mapa ou cubistas.
(MELO NETO, 2008, p.39).
[...]o amarelo da cana verde
o vermelho do ocre amarelo,
verde do mar azul,
roxo do chão vermelho.
(MELO NETO, 2008, p.40).
No poema anterior assim como em “A palo seco” o tema do
nordeste reaparece, é interessante observar como poeta explica “o
cante a palo seco” citando pássaros e utensílios. Ele também
explica que “o cante a palo seco” se dá em determinadas
situações e entre objetos, e cita o escritor alagoano como exemplo.
Abaixo seguem duas estrofes selecionadas:
A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos
desenho de arquiteto,
as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.
(MELO NETO, 2008, p.71-72).
A Espanha reaparece neste poema quando ele cita a cidade de Córdoba,
e ao que parece “o cante a seco” rompe o silêncio, não só
através dos pássaros, como a araponga, mas também no “ferro
contra a pedra”, no “ferro contra o ferro”. E segundo o poeta:
O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol; [...]
(MELO NETO, 2008, p.67).
O poema citado acima é divido em números que vão de: 1.1
até 4.4; e cada parte é composta de duas estrofes e cada estrofe
contém quatro versos. No total são trinta e duas estrofes.
Se em “Cemitério pernambucano”; “A palo seco”; “Cemitério
paraibano”; Litoral pernambucano” entre outros poemas, Cabral
trata do nordeste, se em “Sevilha”, “Estudos para uma bailadora
andaluza”, trata da Espanha, o tema do feminino se manifesta tanto
no primeiro poema do livro, quanto em “A mulher e a casa”, “Rio
e/ou poço”; “A imitação da água”, “Mulher vestida de
gaiola”, “Jogos Frutais”. E neste último vemos 56 estrofes que
se alternam entre quatro e três versos e, todo o erotismo do poeta
na relação que estabelece da mulher com as frutas do nordeste:
Tens de uma fruta aquele
tamanho justo;
não de todas, de fruta
de Pernambuco.
(MELO NETO, 2008, p.93).
És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
(MELO NETO, 2008, p.97).
Em Dois parlamentos, segundo Secchin é possível
observar uma “sátira feroz ao discurso do poder público frente à
miséria nordestina”, e os dois poemas: “Congresso no Polígono
das Secas (ritmo senador; sotaque sulista)” e “Festa na
casa-grande ( ritmo deputado; sotaque nordestino)” nos remetem à
Morte e Vida Severina.
O livro trata da vida e morte do trabalhador agrário, e se na
primeira parte o poeta discorre sobre os cemitérios, na segunda
parte, vemos o trabalhador como um cossaco, uma espécie de rato do
mato.
Segundo Eucanaã, as notações em parênteses nos dois textos do
livro se assemelham à rubrica na escrita teatral e nos dois textos
“há um duplo distanciamento, social-hierárquico e espacial”.
Nas duas partes do livro não temos a fala do retirante, mas a
crítica do poeta está presente.
No entanto, se a crítica do poeta em relação aos senadores e
deputados que tratam de forma desumana o trabalhador agrário do
nordeste nos chama atenção, outro elemento flagrante é a divisão
numérica que aparece no livro.
Nas duas partes do livro temos uma divisão não linear, que exibe
uma progressão aritmética.
O primeiro poema é dividido em quatro séries, e em cada série
temos quatro partes/estrofes e cada estrofe com dezesseis versos.
Para melhor compreendermos a divisão, a primeira série é dividida
em: 1,5,9,13, a segunda é dividida em: 2,6,10,14, a terceira é
dividida em: 3,7,11,15 e a quarta e última é dividida em:
4,8,12,16.
De acordo com Eucanaã, o leitor pode seguir a proposta do autor ou
optar por uma leitura linear, no entanto, “não há como deixar de
ver uma estrutura de encaixes, cortes e combinações”, e ler é
“participar do jogo textual e da construção do livro” (FERRAZ,
2008, p.12).
O segundo poema é dividido em cinco séries e temos vinte estrofes
e cada estrofe tem 16 versos, sendo que a primeira série é:
1,6,11,16, a segunda é: 2,7,12,17, a terceira é: 3,8,13,18, a
quarta é: 4,9,14,19, e a quinta e última: 5, 10, 15, 20.
Abaixo seguem fragmentos de “Festa na casa-grande (ritmo deputado;
sotaque nordestino)”, e podemos observar a crítica de João Cabral
ao falar que o “cassaco de engenho” não sonha:
O cassaco de engenho
quando está dormindo:
- se vê que é incapaz
de sonhos privativos.
- Nele não há esse ar
distante ou distraído
de quem detrás das pálpebras
um filme está assistindo.
(MELO NETO, 2008, p.120).
De acordo com Secchin, Serial ( 1959-1961) é
escrito sob o número quatro, sendo dezesseis poemas, e cada estrofe
dividida em quatro versos. Segundo o próprio poeta, o livro “é
divido em quatro partes sob qualquer ângulo que se olhe”.
No livro, no entanto, como afirma Eucanaã em Belo e Bula, o
poeta utiliza: algarismos arábicos, asteriscos, algarismos romanos e
travessões para separar os quatros segmentos dos poemas, e, isso se
relaciona com o modo de abordagem dos objetos. “Além de cada poema
constituir-se como série – soma de quatro segmentos - , eles
formam, por conseguinte, séries de quatro em quatro, apontando o
tema e o tipo de abordagem. (FERRAZ, 2008, p.14).
Secchin parece concordar com a observação de Eucanaã, pois, para
ele os poemas possuem quatro partes, quatro tipos de estrofação,
quatro tipos de esquema rítmico-métrico e quatro perspectivas de
relação entre o sujeito e o objeto descrito.
O livro com dezesseis
poemas segue uma divisão em que de quatro em quatro poemas podemos
observar uma produção em série, na qual o primeiro poema apresenta
oito estrofes; o segundo apresenta dezesseis estrofes, o terceiro
poema apresenta vinte e quatro estrofes e o quarto apresenta trinta e
duas estrofes.
Nesse livro também se destaca a homenagem de João
Cabral a Graciliano Ramos no poema “Graciliano Ramos:” do qual
destacamos uma passagem:
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas:
e onde estão os solos inertes
de tantas condições caatinga,
em que só sabe cultivar
o que é sinônimo da míngua.
(MELO NETO, 2008, p.166).
Por fim, tratamos de “A educação pela pedra” (1962-1965),
livro observado pela crítica como de suma importância é
alicerçado, segundo Secchin, pelos princípios binários, pois
“comporta duas partes
(Nordeste/Não-Nordeste), com dois tipos de estrofação (estâncias
curtas/longas), e cada poema se divide em dois segmentos.”4
Em Nordeste (a), observamos que muitos poemas possuem duas estrofes
com oito versos em cada estrofe. Assim é em “O mar e o canavial”,
em “O sertanejo falando” e nos seguintes. Em “O sertanejo
falando” vemos também a condição “pedrenta”, a “árvore
pedrenta” do sertanejo e descobrimos que suas palavras são de
pedra, por isso, o falar rebuçado e devagar, todo o cuidado ao falar
e confeitar as palavras.
Abaixo segue uma estrofe do poema, na qual é possível notar o
idioma pedra a fala dolorosa do sertanejo:
Daí por que o sertanejo fala
pouco:
as palavras de pedra ulceram a
boca
e no idioma pedra se fala
doloroso;
o natural desse idioma fala à
força.
Daí também por que ele fala
devagar:
tem de pegar as palavras com
cuidado,
confeitá-las na língua,
rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse
trabalho.
(MELO NETO, 2008, p.202).
A partir do poema “Na morte dos rios” temos poemas de duas
estrofes, sendo a primeira com seis versos e a segunda com dez versos
num total de dezesseis versos. Observa-se nova mudança a partir de
“A educação pela pedra”, no qual vemos a primeira estrofe com
dez versos e a segunda com seis versos, num total de dezesseis
versos.
O que observamos é de em Nordeste (a) de três em três poemas, há
uma mudança na estrofação, no entanto, a soma das estrofes resulta
em dezesseis versos.
Dessa forma, nós temos nos três primeiros
poemas a seguinte divisão: poemas com duas estrofes e cada estrofe
com oito versos, depois, temos nos três seguintes: poemas com duas
estrofes, sendo que na primeira estrofe há seis versos e na segunda:
dez versos; nos seguintes três: poemas com duas estrofes, sendo a
primeira estrofe com dez versos e a segunda com seis versos, e na
última parte de três poemas, temos a divisão em duas estrofes,
onde cada estrofe tem oito versos.
Assim, a primeira parte do livro é
divida em 12 poemas. Notamos poemas que formam pares, mas que também podem ser lidos
independentes. Um exemplo de par está nos poemas “O mar e o
canavial” e “O canavial e o mar”, ambos com duas estrofes e
cada estrofe com oito versos.
Contudo, se em “O mar e o canavial”
o poeta trata do que o mar aprende e não aprende do canavial e, do
que o canavial aprende ou não aprende do mar, em “O canavial e o
mar”, Cabral trata do que o mar ensina e não ensina ao canavial e
o que o canavial ensina e não ensina ao mar.
E assim os poemas que
também podem ser lidos separadamente acabam por se complementar.
No primeiro poema lemos na segunda parte da primeira estrofe:
O que o mar não aprende do canavial:
a veemência passional de preamar;
a mão de pilão das ondas da areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.
(MELO NETO, 2008, p.201).
E na primeira parte da segunda estrofe do segundo poema
lemos:
O que o mar não ensina ao canavial:
a veemência passional de preamar;
a mão-de-pilão das ondas na areia,
moída e miúda, pilada do que pilar.
(MELO NETO, 2008, p.211).
João Cabral também cria relações entre a mulher e o rio em suas
fases de adolescente e adulto. A mulher também se relaciona com a
terra como vemos no Não-Nordeste (B), no poema “Na Baixa
Andaluzia”.
Em Não-Nordeste (b), o poeta trata do feminino e da brasa íntima,
como lemos “De Bernarda a Fernanda de Utreta”. As casas, ou
melhor, as “casaronas” para o poeta parecem ter alma fêmea, e o
feminino também é exaltado em “Uma mineira em Brasília” e em
“Nas covas de Baza”. Neste último temos a relação do cigano
com a terra, como podemos observar no exemplo abaixo:
De onde, quem sabe, o cigano
das covas
dormir na entranha
da terra, enfiado;
dentro dela, e nela de corpo
inteiro,
dentros mais de
ventre que de abraço.
Contudo, dorme na
terra uterinamente,
dormir de feto, não o dormir
de falo;
escavando a cova
sempre, para dormir
mas longe da porta,
sexo inevitável.
(MELO NETO, 2008,
p.215).
Ao retomarmos a análise da estrofação, observamos que em
Não-Nordeste (b), o poeta segue a mesma fórmula matemática que em
Nordeste (a) e temos também doze poemas. Quanto aos pares de poemas
encontramos: “Uma mineira em Brasília” e “Mesma mineira em
Brasília”; “Nas covas de Baza” e “Nas covas de Gaudix”.
Em Nordeste (A) encontramos a seguinte divisão: de três em três
poemas a divisão das estofes muda, mas o número total de versos de
cada poema é sempre vinte e quatro. Diante disso, temos nos três primeiros
poemas: duas estrofes e cada estrofe com doze versos, nos três
poemas seguintes: duas estrofes, sendo a primeira com oito versos e a
segunda com dezesseis versos.
Adiante, nos três poemas temos a
divisão em duas estrofes, sendo a primeira com dezesseis versos e a
segunda com oito versos. Na última parte de Nordeste (A), temos três
poemas que apresentam duas estrofes e cada estrofe com doze versos.
A série se repete em cada parte do livro como podemos notar e
também os pares.
Em Nordeste (A) encontramos também entre encaixes e desencaixes o
seguinte par: “The Country of the Houyhnhnms” e “The
Country of the Houyhnhnms (outra composição)”.
Em Não-Nordeste (B) temos a mesma divisão em série que
encontramos em Nordeste (A) e encontramos os seguintes pares de
poemas: “Comendadores jantando” e “Duas fases do jantar dos
comendadores”, “A urbanização do regaço” e “O regaço
urbanizado”.
É interessante notar no primeiro par de poemas sobre
os comendadores a crítica e a criação de palavras que se juntam no
poema, assim temos: fundassentados, almiabertos, calmoabertos e vemos
comendados sentados em suas cadeiras como se estivessem, segundo o
poeta, sentados na fundação das próprias igrejas, fechados em suas
carapaças para os sermões das demais igrejas.
Ainda é possível ver pares entre “Coisas de cabeceira, Recife”
em Nordeste (a) e “Coisas de cabeceira, Sevilha” em Não-Nordeste
(b); “Bifurcados de habitar o tempo” de Nordeste (A) de e
“Habitar o tempo” de Nordeste (B). Em alguns pares, como afirma
Eucanaã: “o reaproveitamento pode ser total ou parcial, com ou sem
alterações de quadras e de dísticos. Abaixo segue um exemplo no
qual vemos dois versos de cada poema com uma pequena alteração:
Diversas coisas se alinham na memória
numa prateleira com o rótulo: Recife
(MELO NETO, 2008, p.205).
Diversas coisas se alinham na memória
numa prateleira com o rótulo: Sevilha
(MELO NETO, 2008, p.217).
Por fim, A educação pela pedra, segundo Eucanaã, “é o
resultado de um jogo de desarticulação/rearticulação de poemas,
concebidos não como estruturas estáticas”, mas, como “estruturas
abertas [...] móveis, constituídas por versos que podem ser
destacados e recolocados em outro lugar”; e neste livro, temos uma
poesia sofisticada que “nasce da matemática, da geometria, da
sujeição da sensibilidade ao projeto.”
1
SECCHIN, Antonio Carlos. “Vigilância contra as facilidades da
escrita poética”. O Estado de São Paulo.(SP) 1/06/2008.
2
MELO NETO, João Cabral de. A educação pela pedra e outros poemas.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

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