Jorge Luís Borges

Borges e Ficções.


O livro Ficções (1944), de Jorge Luis Borges, reúne dezesseis contos, vários fantásticos e um policial, como o próprio Borges destaca, intitulado “Os jardins de veredas que se bifurcam”. O livro também é divido em duas partes e dois prólogos. A primeira parte intitulada “Os jardins das veredas que se bifurcam” (1941) e, a segunda parte nomeada por “Artifícios” (1944).
Na primeira parte formada por sete peças como afirma Borges há uma destaque para a criação de livros imaginários como o exemplo de “Tlön, Uqbar Orbius Testius”, e na segunda parte formada por nove peças, o autor destaca “A morte a bússola”, um conto que envolve enigmas, um nome sagrado a ser pronunciado e uma vingança calculada. Borges também trata de “Funes, o memorioso”, que para ele: “é uma longa metáfora à insônia”. Ainda sobre “A morte a bússola” é possível vislumbrar neste conto um jogo entre o fantástico e o policial e, que nos faz percorrer os enigmas e recordar em parte “Os crimes da rua Morgue” (1841), de Allan Poe.
É possível analisar os contos de Borges a partir de uma leitura da filosofia moderna e observar a obra deste autor dentro da proposta desenvolvida pelos críticos do pós-modernismo. Para isso, tomamos como base o artigo de Manuel F.Medina publicado na “Intercultural Communication Studies”, XIV- 3, cujo título é “Parodia, simulacron y creación en Ficciones de Jorge Luis Borges.”
Para Manuel F. Medina é possível observar Ficções como um livro clássico da literatura hispanoamericana e da literatura universal, no qual Borges parece dialogar com questões da filosofia ocidental, e utiliza muitos postulados da mesma em seus contos. Medina também observa os conceitos de Derrida, Foucault, Lyotard, entre outros, para melhor compreender a obra de Borges na visão da crítica pós-moderna. O objetivo, no entanto, é utilizar postulados da filosofia moderna e as aberturas possíveis da pós-modernidade para melhor compreender os conceitos de criação de mundo e ordem estabelecidos nos contos de Borges.
Medina então recorre as Meditações metafísicas de René Descartes, que é um precursor da filosofia moderna, e partir desta obra é possível pensar como compreendemos a realidade do universo que habitamos e como a mente e o corpo se comunicam para funcionar. No início do ensaio de Descartes ele expõe que talvez representemos o sonho de um criador e quando suas ilusões cessam, deixamos de existir. No entanto, o próprio Descartes descarta isso ao afirmar: “Penso, logo existo”. E enquanto possui essa habilidade não pode duvidar de sua existência. Na relação do corpo com a mente, explica que a sua percepção do mundo exterior e de sua realidade tem sua raiz na vontade do criador que permite que ele perceba. Outros filósofos avançam mais nesta questão. O próprio Leibiniz expõe que o azar não existe, senão que Deus estabeleceu a ordem do universo, e isso inclui tudo enquanto moramos na terra. Quando Deus criou o mundo estudou um infinito número de possibilidades e fez o melhor possível – a perfeição absoluta. E Deus não construiu um mundo sem maldade e injustiça porque isso não figurava entre as possibilidades de mundo que pôde escolher.
Todavia, segundo Medina, pensadores contemporâneos têm desafiado a presença de um Deus como explicação de nossa apreciação, percepção e entendimento do mundo exterior. Jean Baudrillard parte, por exemplo, de um modelo baseado na ficção, de um simulacro, que se origina do conceito que os seus escritores utilizam para simular, duplicar a realidade exterior de seus textos. Ele afirma que os textos produzidos, fictícios constituem uma simulação de uma realidade que não se pode duplicar porque o signo jamais equivale ao espaço que se tenta reproduzir. Para ele, no final do século XX, a ficção subverte ou destrói a característica que um mundo reproduzido equivale a realidade. Assim, a narrativa demonstra antes a carência de semelhança com a realidade e substitui a realidade pela realidade ficcional ou pela hiper-realidade. E o mundo hiper-real se apresenta como uma resistência à realidade.
Medina afirma que segundo Mikhail Bakhtin, Walter Benjamin, entre outros teóricos, a arte procura criar uma nova realidade e por isso deseja duplicar o processo de criação, assumindo o papel pré-definido de um criador supremo. Os artistas desejam criar a realidade ou imitar seu modelo em suas obras. No entanto, para Benjamin a aura está apenas nos originais e se perde no interesse das massas de encerra a arte em seus espaços e duplicá-los incessantemente excessivamente com esse fim.
Segundo Medina para Brian Mac Hale em Posmodernist Fiction, a ficção ocupa espaço entre a fé e a dúvida ao ocupar o espaço de que não é nem falso, nem verdadeiro. De acordo com Medina, a ficção indaga o processo ontológico do mundo ao imitá-lo, duplicá-lo e escrevê-lo em relação a realidade e também em relação a obras não reais.
Ainda para Medina, de acordo com a Teoria da Paródia, de Linda Hutcheon, a paródia pode ser vista como uma inversa ironia, pois a crítica do que imita não deve ridicularizar o modelo imitado. Assim, a paródia moderna se mostra como um jogo irônico com as convenções e repetições, onde se pode ver de forma crítica o original.
Dessa forma, de acordo Medina, Ficções evoca os postulados tantos dos filósofos modernos como de críticos pós-modernos ao indagar a ontologia da criação dos mundos e da representação da realidade.
Segundo Medina, o exemplo pode ser visto em “A loteria na Babilônia”, que nos apresenta uma loteria que parece com a que a concebemos, mas, pouco a pouco ela se confunde com o estado e vemos que ela controla todos os acontecimentos. A Companhia passa a controlar o azar, e decide quando e quem vai morrer, quem matará, de qual enfermidade o sujeito morrerá, quando o enterrarão e o que aparecerá na nota cronológica do jornal.
Imaginemos um primeiro sorteio, que dita a morte de um homem. Para seu cumprimento se procede a um segundo sorteio, que propõe (digamos) nove executores possíveis. Desses executores, quatro podem iniciar um terceiro sorteio que dirá o nome do carrasco, dois podem substituir a ordem adversa por um ordem benévola [...]outros podem se negar a cumpri-la. Tal é o esquema simbólico. Na realidade o número de sorteios é infinito (BORGES, 2008, p.58-57).

Para Medina, a tese de Borges relembra Leibniz no que concerne a nulidade do azar, posto que, Deus estabeleceu a ordem do universo que determina o que está porvir. Quando Deus criou o mundo estudou infinitas possibilidades e escolheu a melhor possível. De acordo com Medina, Leibniz afirma que quando uma pessoa vem ao mundo traz consigo o que chama substância, uma lista que levará a cabo durante a sua estadia neste mundo. O que vemos em “A loteria na Babilônia” é que o destino de uma pessoa é o que determina a sua sorte. Já no Discurso da metafísica, vemos que Deus é quem escolhe o melhor mundo possível para cada pessoa.
Segundo Medina, no entanto, o absurdo apresentado diante do poder da loteria sobre o destino das pessoas funciona como crítica a apresentação do bem do mal na filosofia de Leibniz. Borges também trata do livre arbítrio neste conto, que seguindo as ideias de Leibniz ou o que ocorre na loteria, não existe, pois se o destino do indivíduo está pré-determinado seja por uma loteria ou por um Deus, nada que este indivíduo escolha será de fato sua decisão.
"Tlõn, Uqbar, Orbis Tertius", por sua vez, aborda a questão da criação de uma forma diferente. O narrador pretende encontrar em uma apócrifa enciclopédia, a descrição de um mundo irreal e bastante ordenado, criado por uma sociedade secreta de estudiosos que têm utilizado o mundo real como um modelo de criação. Mas o mundo não é um mundo tangível, mas existe apenas na mente de seus criadores. Este mundo idealista parodia ou duplica os postulados de filósofos que sucederam Descartes, entre eles: Locke, Berkeley e Spinoza.  Berkeley afirma que tudo que percebemos existe e os criadores  de Tlön partem de tal princípio para construí-lo através de suas percepções. 
 
Todavia, se Tlön existe por causa da imaginação, quando os seus criadores deixam de percebê-la, ela deixa de existir? Medina explica que segundo os postulados de Berkeley, não. Afinal, Deus é visto como um ser onipresente que não descuida de suas criações e o cosmo segue existindo ainda que os olhos humanos não possam percebê-lo. Borges então cria em seu conto um homem similar a Deus, um obscuro homem de gênio. Mas a presença deste homem similar a Deus pressupõe que Tlön continua existindo mesmo que os seus criadores: astrônomos, pintores, geômetras, poetas, químicos, metafísicos, moralistas deixem de perceber a criação? Para Borges, não, e o escritor vai na contramão do filósofo, pois em seu conto, os objetos desaparecem desde que a pessoa que os desenhou, mentalmente, deixa de conceber. 
 
As coisas se duplicam em Tlön; propendem igualmente a se apagar e a perder os detalhes quando as pessoas as esquecem. É clássico o exemplo de um umbral que perdurou enquanto um mendigo o visitava e que se perdeu de vista com a sua morte. Por vezes uns pássaros, um cavalo, têm salvado as ruínas de um anfiteatro (BORGES, 2008, p.28).

O conto se levanta como uma parodia e questiona o conceito de mundo perfeito proposto por Leibniz. O conto faz emergir as contradições entre os deuses/ criadores do mundo perfeito de Tlön, cujo interesse em criá-lo não tem a seriedade com que o Deus começa sua missão no mundo ocidental. Vale também ressaltar que os metafísicos de Tlön buscam o assombro e não a verdade, e julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica.
Para Medina, o processo de simulacro do desenvolvimento da criação do mundo não duplica o plano de Deus, porque ele se abstém de seguir detalhadamente o projeto que desejam copiar.
A apresentação do tempo neste conto também crítica as dissertações sobre a natureza do tempo discutida por muitos séculos por filósofos. “Uma das escolas de Tlön chega a negar o tempo : argumenta que o presente é indefinido, que o futuro não tem realidade senão como esperança presente. Outra escola declara que todo o tempo já transcorreu e que nossa vida é apenas uma recordação , ou o reflexo crepuscular, sem dúvida falseado e mutilado, de um processo irrecuperável”. (BORGES, 2008, p.22-23).
Dessa forma, para Medina, “Tlón, Uqbar, Orbis Tertius” nos remete à prova cosmológica que afirma a criação de Deus por parte de outro Deus, que por sua vez foi criado por outro Deus, e assim sucessivamente ad infinitum.
Esta questão nos remete a outro conto: “As ruínas circulares”. Nesta narrativa vemos um homem que sonha com outro homem e interfere na realidade, depois este mesmo homem descobre que mesmo não passa de um sonho de outro homem. A partir deste conto é possível questionarmos sobre a existência real de um ente ou se tudo não passa de uma ilusão criada, o produto da imaginação, um sonho do criador. E o conto gira ao redor de um caminho onírico, onde cabe pensarmos também na imagem do uróboro, onde a cabeça da serpente morde a própria calda, e o fim parece emendar-se no começo de forma infinita.
Tomando como ponto o artigo de Medina, ele afirma que Borges neste conto parece jogar com as Meditações de Descartes, que afirma a sua existência como ser pensante, no entanto, no conto de Borges, como vemos, tamanha é a vertigem e a fragilidade do homem que descobre que não passa de um sonho de outro homem, assim como pode provar sua existência, se não passa de uma projeção? O homem compreende então que não passa de uma aparência.
Outro conto de Borges sobre a criação, ou melhor, sobre a paródia e o simulacro é “Pierre Menard, autor do Quixote”, no qual o escritor Pierre Menard vai escrever Dom Quixote, não numa nova versão, ou para copiar Cervantes, mas para produzir páginas que coincidam linha por linha, palavra por palavra com a de Cervantes. No entanto, ele reescreve Quixote de memória, omite algumas partes, dá ênfase a outras, e para o narrador ele consegue mais sutil que Cervantes. 
 
Para Linda Hutcheon, há dois objetivos no paradoxo da paródia: imitar com o propósito de subverter e emular para ganhar autoridade. O curioso é que Menard não quer atualizar o texto, mas reproduzi-lo fielmente. Para o narrador de Dom Quixote é um simulacro mais próximo e possui mais autoridade que o original de Cervantes. Jean Baudrillard afirma que neste caso o simulacro precede o modelo e o lê como um simulacro de si mesmo.
Em suma, ao parodiar, subverter e duplicar, o livro Ficções, de Borges, questiona postulados filosóficos da modernidade e discute os conceitos em vários contos com ideias inovadoras. Borges parece se inserir mesmo na pós-modernidade, e segundo Medina, é curioso perceber que Baudrillard parte da ficção de Borges para tratar do simulacro e criticar a obsessão do século XX em criar a realidade a partir de modelos duplicados. No livro de Borges, vale ressaltar que a maioria dos narradores em seus contos trata da ontologia do saber, da criação do homem e do mundo num universo de aparência absurda e fantástica, no qual muitas questões são refletidas e refletem como num jogo de espelhos a realidade. Diante de espelhos, duplicações, labirintos, e uróboros, e “veredas” que se bifurcam, Borges faz emergir além da crítica irônica, um processo contínuo de criação de saber e de representação do homem, do mundo e da arte.


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