A Peste de Camus
A Peste é uma crônica de Albert Camus escrita em 1947, que
também é classificada como romance, no entanto, na própria
narrativa e observações de críticos como Roland Barthes, ela não
passa de uma crônica. Para Barthes: “ ‘A Peste’ não é um
romance, mas uma crônica, ao menos ela se chamava assim de início.
Isso quer dizer que todos os temas habituais do romance – o homem,
o amor ou o sofrimento – são vistos aqui através da transparência
e do distanciamento de uma história coletiva, acompanhada dia a dia
sem jamais se deixar penetrar por uma significação propriamente
histórica”. (Resenha do livro A Peste).
A crônica é narrada por dr.Rieux, e trata da história de uma
peste bubônica que atinge a cidade de Oran. A cidade tem suas portas
fechadas e os habitantes passam então a viver em quarentena. A
peste, no entanto, não só transforma milhares de pessoas em
flagelos humanos como faz com que muitas pessoas se vejam obrigadas a
viver separadas do seu grande amor, como é o caso do próprio dr.
Rieux , separado da esposa que fora tratar de uma doença em outra
cidade, e o caso do jornalista Rambert, que se vê longe de sua
amante e não consegue sair de Oran. A peste é capaz de fazer ecoar
o sentimento de perda da esperança e a solidão. O povo de Oran
vivencia a falta de comunicação com quem está fora, numa espécie
de aprisionamento. A peste, no entanto, parece fazer emergir do
humano uma espécie de solidariedade.
A Peste é também uma alegoria da invasão da Alemanha
nazista na França durante a Segunda Guerra Mundial, onde vários
episódios de ocupação e resistência, segundo Barthes, relembram a
luta dos franceses por volta de 1942. Todavia, para Peter Royle, em
“Crítica sartreana de La Peste de Camus”, da revista Iztapalapa,
nº7, a maior alegoria a ser tratada nesta crônica de Camus é a
alegoria da condição humana.
De acordo com Peter Royle o livro nos leva a pensar acerca de coisas
que já temos consciência como a morte e alienação, mas que não
gostamos de pensar. Mostra como todos nós somos e nos alienamos a
nós mesmos na luta contra a alienação e na luta pela
autenticidade, e dizer que todos nós somos em potencial portadores
da peste é dizer que todos somos tratantes da morte.
Outra possibilidade, segundo Peter Royle, é interpretar o livro
como uma fábula moral e observarmos a moralidade dos personagens,
onde, por exemplo, dr. Rieux representaria o prudente, e assim os
diferentes destinos dos protagonistas poderiam ser entendidos como um
comentário dos seus atos. No entanto, o que temos em A Peste,
mais do que uma questão ontológica e do que uma fábula moral é
uma situação-limite. Uma situação-limite com diretrizes
diferentes das observadas por Sartre em relação as literaturas de
situações extremas, porque enquanto para Sartre, as pessoas em
situações extremas se elegem e ajudam a criar uma situação para
ajudar elas mesmas, a peste é vista de forma diferente pela
personagem Tarrou e pelo próprio Camus, que veem nela uma
oportunidade para que as pessoas realizem sua bondade essencial e que
a crônica reflita no mundo real. Isso tudo, de acordo com uma visão
existencialista da natureza humana e da realidade externa.
A questão é que a falta de comunicação acontece em qualquer
sociedade, segundo Royle, mas só numa situação extrema
reconhecemos isto. Mas do que trata a crônica, da separação de
pessoas queridas, da falta de comunicação? E por que o exílio?
Por que fecham as portas de uma cidade? Por que se fecha uma
sociedade, para poder nivelar a todos?
Segundo Royle, Oran mesmo fechada não é uma cidade totalitária,
não está sob o controle de uma única pessoa, e dr. Rieux mesmo que
não queira quebrar as regras, abre uma exceção no caso de Rambert,
porque não possui um conhecimento de verdade que não possa ser
questionado. No entanto, quando a cidade tem suas portas fechadas, o
problema da peste passa a ser de todos. Os homens então se separam
dos seus ideais pessoais, e na medida que têm alguns ideais, estes
devem convergir para o bem geral. Ao se ter como ideal que a vida
vale a pena, todos os projetos da sociedade devem convergir para
isso. De acordo com Royle, isso explica generosa demanda da
felicidade e o egoísmo do amor. De um lado temos dr. Rieux
trabalhando dia e noite no combate à peste e do outro o jornalista
Rambert, que deseja fugir para encontrar a mulher que ama.
Vemos também Tarrou e Rieux nadarem lado a lado no mar, e a
comunicação trivial das pessoas na cidade. Para o crítico, todos
os personagens protagonistas têm que abrir mão dos seus ideais
pessoais e correm o risco de ver que seus esforços se tornam
incompreensíveis para eles mesmos.
Segundo Royle, para Camus a cidade fechada de Oran representa o
universo e não há nada do lado de fora, para ele Deus não existe,
de modo que nada pode ser apontado fora de si mesmo. No entanto, por
mais absurdo que pareça, existem valores, e é por isso que vemos na
narrativa a formação de equipes de voluntários. Mas o ato
voluntário para Camus não é um grande mérito, e sim um dever,
pois a peste se revelou como uma incumbência de todos. Porém, nem
todos se arriscam, e isso não dizer que não sejam bons ou que não
estejam corretos, afinal havia um risco em trabalhar no combate à
peste, mas também havia um risco em nada fazer para ajudar, e estar
na cidade tomada pela peste já era um grande risco.
Para Camus, de acordo com Royle, diante da peste não há juízo de
valor, porque não há fundamento. Royle também afirma que Camus
mostra que só o presente é real, que as demais dimensões temporais
são ilusões em última instância, no entanto, a mensagem da peste
não é que se deva viver numa redobrada atenção por causa de um
futuro apocalíptico, isso conduz a esterilidade, nem preso a
lembrança do passado, mas a ideia que aparece através de Rieux é
que o tempo é cíclico nietzcheano e isso ajuda a fazer mais
compreensível a sua compreensão de valores.
Mas se para Camus o universo está fechado porque Deus não existe,
para Sartre o ateísmo é mais cabal, o universo está aberto, e o
futuro existe. Para ele nos projetamos para o futuro sem pensarmos na
morte.
Contudo, a sociedade fechada de Oran é uma imagem de todas as
sociedades sem exceção das abertas, assim, a situação pintada em
A Peste, é uma imagem da condição humana. Tal como a
quantidade de liberdade individual que se permite em uma sociedade é
o resultado de uma decisão coletiva, e a morte depende da vontade
inescrutável do destino. Por outro lado, a resistência de Rieux e
Tarrou até que a sociedade de Oran se reconstruísse, se compara de
acordo com Royle, com a luta pela independência e autonomia moral
da França em relação à ocupação da Alemanha nazista.
Resistência até que chegasse o momento da reconstrução.
A crônica contada em terceira pessoa traz ainda uma descoberta e
uma diferença na apresentação da história, pois além de lutar
contra a peste descobrimos que Rieux é o narrador em terceira
pessoa, e que diante de seu sofrimento, da separação, e da dor e
sofrimento de tantos concidadãos, é com certa reserva que se revela
como o narrador e registra os acontecimentos. Para Royle ele escreve
em terceira pessoa por não encontrar a objetividade e por isso se
torna objeto da própria escrita.
Por fim, apesar das várias críticas que A Peste recebeu,
tanto para Royle quanto para Sartre, é um livro admirável,
independente das respostas, por haver formulado tão artisticamente
as perguntas e trazer uma pluralidade de temas críticos e
construtivos.
Depois que a peste retrocedeu e os portões da cidade foram abertos,
houve um regozijo geral, mas Rieux expressou um temor de que as
lições da peste não tivessem sido aprendidas, afinal ele sabia
que: “o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar
dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera
pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na
papelada. E sabia, também, que viria um dia em que, para desgraça e
ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria
morrer numa cidade feliz.” (CAMUS, 2010, p.269).
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