Entre duas cidades
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| Noite de Nice, 1891, Edvard Munch. |
Ele tomou o trem das duas e depois de oito horas estava em um novo lugar, livre do seu passado,
pelo menos era o que pensava. Ao
chegar na estação, desconheceu sua própria cidade, tudo parecia
novo, olhou os jovens mastigando chocolates comprados em máquinas,
velhos com seus longos casacos e valises pequenas, pessoas sérias. Caminhou lentamente pelo acesso inferior que levava à porta da
estação e mais uma vez parou. Observou uma pequena praça com
bicicletas, carros parados e o ponto de ônibus na esquina. Preferiu
seguir a pé, há muito tempo não percorria aquela cidade, olhava
para as pessoas com o mesmo deslumbramento da infância e apesar de
parecer perdido seguia pela rua a procurar velhas esquinas. Passou
pela barbearia árabe, pela padaria, pela escola das crianças, viu
quando um menino trepado na janela desta mesma escola, do lado de fora, gritava para
outro que estava no pátio. Quis entrar na escola, na barbearia, na
padaria, mas segurou o impulso e seguiu. Fazia frio, em pouco tempo
escureceria, ele precisava achar um lugar para dormir. Mais
uma esquina, um grande mercado à frente, uma pizzaria em uma van.
Achava tudo tão moderno. Seguiu em frente e achou um hotel, o preço
não tão justo, mas pediu um quarto, um café americano e subiu para
o nono andar. Ali, com certeza, estaria a salvo. Ninguém se
lembraria dele, nem saberia do que ocorrera na outra cidade. Os
policiais deram o caso por encerrado, ninguém conseguiu provas, e
as notícias das guerras e da construção de muros para impedir os
refugiados de entrarem no país ocupavam as manchetes dos jornais.
Entrou no quarto, virou o ferrolho, passou a chave e se certificou de que o roupeiro estivesse solto da parede. Empurrou o roupeiro na direção da
porta e respirou aliviado, jogou a pequena valise pelo chão,
pendurou o casaco no cabide do armário e foi ao banheiro. Lavou o
rosto, e ao se olhar no espelho, já enxergava em si certa mudança,
parecia mais novo, uma outra pessoa. Ninguém o reconheceria, na foto
publicada no jornal ele estava mais magro, barba por fazer, cabelos
longos, agora era outro. Acendeu o abajur, ligou a tv, e se deixou
levar pela cantilena de um programa de karaok
ê - Entrez-vous. Dormiu. Estava escuro,
um vento frio, e um homem com uma enorme capa preta subia o bosque e
levava consigo uma presa de tamanho humano, em pouco tempo, se embrenhou na mata e lá a
devorou. Na manhã seguinte, o novo hóspede
sentiu um mal estar inexplicável, e ao passar a língua pelas gengivas experimentou um gosto amargo de sangue. Produto talvez de um bruxismo que lhe acompanhava durante anos. Ainda estava de pijama e meias, quando desceu correndo os noves andares em direção à recepção e se pôs a inquirir o atendente. Segundo ele, ninguém passara pelo hall depois da meia-noite. O homem resolveu então trocar de hotel.
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