Mal dá para mexer os ossos, aqui em Copacabana o vento entra pelos buracos das janelas, sim, porque ele não entra pelas frestas, mas pelos buracos da esquadria, vasculha a roupa, penetra na pouca carne e pele e se estende até os ossos. Tremo ao digitar as poucas tintas de memória que me restam neste outono já glacial. Dormir e ler parecem o único remédio, tocar flauta parece impossível, meus lábios estão enrigecidos além de arroxeados. Chove muito lá fora e aqui dentro parece que uma dor comove o corpo magro-fraco e seca a fala. Rio e Niterói em estado de calamidade, pessoas sendo levadas junto com suas casas, tudo num jato de tempo, sem deixar ninguém sair, fugir ou respirar. No entanto, dormimos ainda no manso cobertor-edredon, enquanto tantos afundam suas identidades num mar de terra e sufocam até não mais pensar.
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